Crônica: A mulher do vestido branco


As bandeirinhas coloridas estavam penduradas de uma parede a outra. Cortando o caminho, algum balão de papel, dividido em quatro partes, uma de cada cor.

Algumas lâmpadas lançavam um sinal sobre as placas indicativas do que era vendido nas barracas. As crianças não queriam os doces ou salgados, apenas queriam o tchu e queriam o tcha. Já as senhoras, queriam entender o significado do tal tchu e do tal tcha.

“Eu quero um tcha de flor de maracujá”, gritou uma senhora – e foi o máximo que ela conseguiu captar da mensagem ensinada por Neymar. Neymar? Sim, este professor de música, que escorregou na manteiga da pipoca no jogo contra o meu time pela Libertadores. Mas voltemos ao assunto de antes.

Fumaça, de onde faziam churrasco, muita fumava perseguia os míopes, para lhes embaçar os óculos. Contribuía para isso uma leve neblina de uma noite de inverno, em que a Lua minguava por trás dos prédios.

Uma mulher entrava naquela área onde acontecia a festa.

From this moment on, tudo mudaria na vida dos homens lá presentes.

Ela não era alta. A pele negra, como os olhos e os cabelos. Trajava um vestido branco, que chegava até as canelas – não aquelas mesmas que adoçavam vinho quente, quentão, canjica e arroz doce. Se ela falasse inglês, diria para os que a olhavam: “Men, I feel like a woman!”.

A moça caminhou até o salão coberto, fugiu do sereno. Lá, as crianças brincavam na pescaria. Ganhavam estilingues que se acendiam. Tempos modernos em que matam os passarinhos e o sangue se mistura com neônio.

Dois meninos brincavam de pingue-pongue no palco. Um deles, mais gordinho, nunca acertava a “maldita bolinha”. Quando resolveu acertá-la, pela primeira e única vez, a pequena esfera branca de plástico cruzou o palco, bateu no teto e caiu na cabeça da mulher que chamava a atenção de todos. “Ô menino, cuidado com isso!”

Às nove da noite, ela saía para o meio da multidão que estava naquilo que chamo de “pátio”. Todos os olhares ela atraía. A trilha sonora destacava: “eu quero ser pra você a Lua iluminando o Sol”.

Um homem, que controlava o som da quermesse, ligou o microfone e anunciou: “Vamos improvisar uma quadrilha, quem quiser dançar, acompanhe a moça vestida de noiva”.

Assim, todos entenderam que a baixinha, gordinha, que segurava um buquê de flores artificiais e conversava com todos, era a responsável por organizar a dança junina. Muitos imaginavam que isso fosse acontecer. Os que confirmaram suas hipóteses, mais do que depressa fugiram. Os outros, talvez tarde demais, tentaram correr.

Os bêbados foram dançar? Não, nem eles. Sobrou para uma criança, cuja mãe o jogou para o centro da roda, para o lado da moça que atraía os olhares, com a fantasia de noiva.

Ao final daquela festa junina beneficente, a noiva (rejeitava por todos os possíveis maridos) anunciou o arremesso do buquê, aliás, de uma única flor vermelha artificial: “Tenho que economizar para os próximos dias de festa, cê tá pensando o quê?”.

Uma garota de 19 anos apenas esticou sua mão, do lugar em que estava, e segurou firme a flor. Essa, sim, atraiu os olhares por sua beleza. Ou pelo copo de vinho quente que segurava.

“É, meu caro”, comentou um amigo, “já diria Machado de Assis, ô, ô, ooô, eeê, eê, eeê, ê, ah, tudo o que eu quero ouvir: eu te amo e open bar”. Deve ser o que a noiva matutava, em seu íntimo. Ou a moça da rosa quem pensava.

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