A hora e a vez #3


Criador…

Quando João Guimarães Rosa nasceu, em Cordisburgo (Minas Gerais), em 1908, o mundo literário brasileiro vivia um período de transição. Já com aspirações modernas, os escritores abandonavam movimentos como o realismo e o simbolismo para lançarem-se na revolução das letras tupiniquins. A concretização disso aconteceu em 1922, quando Rosa tinha apenas 14 anos. Mas somente 24 anos depois o país conheceria o talento de um de seus mais aclamados escritores, com a publicação de Sagarana, cujo último texto é objeto deste estudo.

A terceira fase do período literário moderno, que já podemos chamar de pós-modernismo, dada a grandiosidade da ruptura em relação ao que foi proposto na Semana de 22, também teve como expoentes Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto e Mario Quintana. O regionalismo poético do segundo, em Morte e Vida Severina, também desbravou o grande sertão pelo qual Guimarães Rosa se enveredou. A partir da década de 1940, novos processos narrativos foram utilizados, bem como a linguagem se renovou e a universalidade dominou.

Na composição das obras, Guimarães Rosa derruba a barreira entre a linguagem popular e a erudita e se aproxima da oralidade, algo que vai ser observado em seus neologismos e na metodologia de pesquisa que ele utilizou até chegar ao livro mais importante de sua carreira. “Além dos estados líquidos e sólidos, por que não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?!”, escreveu na carta a João Condé (ROSA, 2015a, p. 22). Entendemos como sólida a linguagem informativa e científica e a líquida como a poética e de fluxos de consciência. Desse ponto, concluímos que o estado gasoso da linguagem é aquele em que o autor pode misturar, transformar a comunicação, inventar novas formas e renovar antigas, como efetivamente fez.

Apresentação1

Mantendo-se sempre no cenário do grande sertão, João Guimarães Rosa tematiza o cotidiano da população local a partir de figuras que fogem ao simples maniqueísmo comum na literatura em geral, como Riobaldo (de Grande Sertão: Veredas) e Augusto Matraga, protagonista do texto mais importante de Sagarana, livro sobre o qual o autor explica:

(…) eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior – sem convenções, “poses” – dá melhores personagens de parábolas: lá se veem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a seca. (ROSA, 2015a, p. 22)

É interessante observar que as personagens e as histórias não separam o bem do mal, por exemplo, mas misturam esses conceitos de forma a humanizar e apontar que, de tão simples, os feitos de cada um deles poderiam ser realidade em qualquer família sertaneja. Rosa tornava épicas figuras desprezadas até hoje, como o jagunço. A obra roseana costuma tratar das questões do bem e do mal, porém desconstrói, em parte, a caracterização do que é bom ou mau. Ele nos faz criar empatia por criminosos antes mesmo de eles se redimirem. Além desses pontos, que se repetem nas diversas produções do autor, está a valorização da cultura local e da natureza, não apenas pela descrição de fauna e flora, mas também pela personificação de animais, destacando a importância deles no ciclo de vida humano. É o que acontece com Riobaldo e também com cada uma das fases de Augusto Matraga, que analisaremos mais adiante.

A obra roseana vai ser encaixada no tipo textual que Alfredo Bosi chamou de tensão transfigurada (2015, p. 419). Aí, o herói ou o anti-herói vai vencer seus conflitos existenciais a partir de alguma transmutação mítica. É nesse detalhe que as novelas e os romances do escritor mineiro vão tocar a poesia e até mesmo o teatro. Nessa mitopoética da literatura brasileira (que abrange também Clarice Lispector), a estrutura de romances e novelas serão renovadas.

Simplesmente, nestes criadores há uma fortíssima vontade-de-estilo que os impele à produção de objetos de linguagem a que buscam dar a maior autonomia possível; nos mestres regionalistas ou intimistas, a independência do fato estético será antes um efeito de uma feliz disposição inventiva do que uma escolha consciente, vigilante. (BOSI, 2015, p. 221)


Leia todo o artigo:
19/08/2017 – Resumo, abstract e referências bibliográficas
26/08/2017 – Introdução
02/09/2017 – Você está aqui
09/09/2017 – …e criatura
16/09/2017 – Hora e vez
23/09/2017 – O herói e sua jornada
30/09/2017 – A trajetória de Augusto
07/10/2017 – Considerações finais


7 comentários sobre “A hora e a vez #3

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