A hora e a vez #4


…e criatura

No ano em que completava 38 anos, João Guimarães Rosa publicou Sagarana. O livro, que inicialmente teria 12 textos, teve três novelas excluídas pelo autor: Questões de família; Uma história de amor; e Bicho mau – este, reescrito e publicado no livro póstumo Estas Estórias (1969). O trabalho autocrítico do escritor resultou numa obra com grandes narrativas, como O burrinho pedrês; A volta do marido pródigo; e A hora e vez de Augusto Matraga.

O primeiro livro publicado do autor já traz mostras do que seria uma de suas marcas: a inovação linguística. Sagarana é uma união de palavras escandinava (saga, um canto heroico) e indígena (rana, semelhante a), cujos significados indicam a essência dos textos – não apenas pela construção mítica das narrativas, mas também pela poética utilizada e pelo tipo de roteiro previsto para cada protagonista. Rosa explica que tinha o objetivo de colocar no papel toda sua concepção de mundo em forma de histórias adultas da carochinha. O autor mostra-se completamente consciente daquilo que pode influenciá-lo e o rejeita, com o sonho de encontrar um estilo novo, um estilo próprio. Mais importante que agradar ao público, era agradar a si.

Rezei, de verdade, para que pudesse esquecer-me, por completo, de que algum dia já tivessem existido septos, limitações, tabiques, preconceitos, a respeito de normas, modas, tendências, escolas literárias, doutrinas, conceitos, atualidades e tradições — no tempo e no espaço. Isso, porque: na panela do pobre, tudo é tempero. E, conforme aquele sábio salmão grego de André Maurois: um rio sem margens é o ideal do peixe.

Aí, experimentei o meu estilo, como é que estaria. Me agradou. De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira. (ROSA, 2015a, p. 21)

As nove novelas, com seus vários acontecimentos, são centradas nas características épicas, como as andanças de um povo, seus feitos memoráveis, e também nas vivências amorosas. A proposta do título, que remete às lendas, se concretiza na forma narrativa utilizada, que busca um tom de oralidade e alinearidade, porém com menos força do que seria visto anos depois em Grande Sertão: Veredas, clássico publicado em 1956.

O mythos também está presente quando se vê a qualidade de fábula das histórias, que involuntariamente trazem um ensinamento moral, mas também nos detalhes místicos das tramas, como em Corpo fechado e São Marcos, especialmente, e na saga de Augusto Matraga. Antes de passarmos a esta novela, é preciso destacar a ênfase que Guimarães Rosa dá ao ethos de seus personagens, no sentido em que demonstra a personalidade e o comportamento deles. Essa construção não se dá apenas pelo narrador, mas pelo discurso das personagens. Nessa seara, Ruth Amossy exemplifica como isso acontece a partir da noção retórica do termo:

Todo ato de tomar a palavra implica a construção de uma imagem de si. Para tanto, não é necessário que o locutor faça seu autorretrato, detalhe suas qualidades nem mesmo que fale explicitamente de si. Seu estilo, suas competências linguísticas e enciclopédicas, suas crenças implícitas são suficientes para construir uma representação de sua pessoa. Assim deliberadamente ou não, o locutor efetua em seu discurso uma apresentação de si. (AMOSSY, 2014, p. 9)

Como última reflexão sobre Sagarana, entendemos, à luz de Roland Barthes, que o fluxo textual roseano é menos de prazer – no sentido em que não está ligado a uma prática confortável de leitura – e mais de fruição, aquele tipo que

põe em estado de perda, aquele que desconforta (talvez até um certo enfado), faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas, do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise sua relação com a linguagem. (BARTHES, 1987, pp. 20-21)

Sobre os textos de Sagarana, Rosa explicita que a novela Duelo foi meditada e vivida por ele próprio, que o protagonista de Corpo Fechado foi com quem mais “conviveu humanamente”, que trabalhou muito e com grande esforço de memória em São Marcos e que, afinal, chegou à hora e vez de Matraga com a consciência de que “quanto à forma, representa para mim vitória íntima, pois, desde o começo do livro, o seu estilo era o que eu procurava descobrir” (ROSA, 2015a, pp. 23-24).

É sobre esta história que passamos a conversar.


Leia todo o artigo:
19/08/2017 – Resumo, abstract e referências bibliográficas
26/08/2017 – Introdução
02/09/2017 – Criador…
09/09/2017 – Você está aqui
16/09/2017 – Hora e vez
23/09/2017 – O herói e sua jornada
30/09/2017 – A trajetória de Augusto
07/10/2017 – Considerações finais


7 comentários sobre “A hora e a vez #4

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