A hora e a vez #5


Hora e vez

A última e mais importante novela escrita por João Guimarães Rosa em Sagarana nos apresenta Augusto Estêves – que é o Nhô Augusto e também o Augusto Matraga. O nome latino não foi escolhido à toa: era utilizado para anunciar o poder dos imperadores romanos. No sertão, indica a força do protagonista, um rico filho de coronel das Pindaíbas e do Saco-da-Embira, casado com Dona Dionóra e pai de Mimita, que só tinha 10 anos.

Matraga é uma palavra criada pelo escritor e pode ser entendida como um apelido para aquele que traz o mal. Pode ainda ser uma relação com a palavra grega trágos, que deu origem ao que hoje chamamos de tragédia. O vocabulário criado por Guimarães Rosa permite várias interpretações, visto que ainda não há um dicionário com significados definitivos. Ao longo da história, a ideia de que Augusto é mal fica de lado; ele é, afinal, humano – um ser ambíguo.

A história, como toda a obra do autor, foi escrita diante das influências do período que sucedeu a Segunda Guerra Mundial, na terceira fase do modernismo brasileiro (geração de 1945). Assim, traz características posteriormente definidas como comuns a obras da época: a reinvenção da linguagem e uma ruptura em relação à estrutura da composição textual em voga, a metalinguagem (especialmente pela intertextualidade, como veremos), o questionamento da existência humana, o regionalismo e a universalização dos temas.

A hora e vez é contada em terceira pessoa por um narrador onisciente que vai apresentar o drama de Augusto no grande sertão de Minas Gerais. A história transcorre durante um período de seis a seis anos e meio e basicamente acontece em três locais, que são de grande importância para a análise que faremos mais adiante: a região do córrego do Murici, o Tombador e o Rala-Coco, onde acontece o desfecho da novela. É no primeiro lugar que começa a história, exatamente com a frase que inicia este artigo. Lá acontecia o leilão de duas mulheres: a preta mais ou menos capenga Angélica e Sariema – branca, de pescoço e pernas finas como a ave de nome aproximado. Ela e o leiloeiro Tião eram apaixonados. Quem a arrematou foi Nhô Augusto, por 50 mil-réis, simplesmente para provocar confusão, já que não a queria. “Você tem perna de manuel-fonseca, uma fina e outra seca”, disse à moça. Importante notar que, no auge de sua influência, cercado de empregados, o protagonista é tratado por “nhô”, brasileirismo derivado de “senhor” vindo do século XIX.

Depois de abandonar Sariema, encontra-se com Quim Recadeiro. Dionóra queria que Augusto fosse para casa arranjar as coisas para a viagem que fariam ao Morro Azul. Augusto avisou que não iria e mandou a esposa e a filha seguirem sozinhas. Também dispensou os capangas naquele dia. A mulher, que tinha belos cabelos e olhos sérios, inicialmente teve vontade de chorar com a notícia, mas percebeu que só tinha motivos para se alegrar.

“Dionóra amara-o três anos, dois anos dera-os às dúvidas, e o suportara os demais. Agora, porém, tinha aparecido outro”, contudo temia pela vida sua e da filha, porque Nhô Augusto poderia matá-las como fez por vingança contra um homem, usando uma foice. Na madrugada daquele dia, as duas partiram, e acabaram encontrando o “outro”: Ovídio Moura. Ele tomou Mimita do colo de Quim, que acompanhava o trajeto, e partiu em outra direção, avisando que a esposa não queria mais viver com o marido. Recado dado, Nhô Augusto deu ordem para que viessem seus bate-paus. Eles não vieram: com os gastos de dinheiro à toa, o patrão já não estava pagando os empregados, que o abandonaram para se juntar a um inimigo, o Major Consilva, cujos planos Quim revelou:

Mal em mim não veja, meu patrão Nhô Augusto, mas todos no lugar estão falando que o senhor não possui mais nada, que perdeu suas fazendas e riquezas, e que vai ficar pobre, no já-já… E estão conversando, o Major mais outros grandes, querendo pegar o senhor à traição. Estão espalhando… — o senhor dê o perdão p’r’a minha boca que eu só falo o que é perciso — estão dizendo que o senhor nunca respeitou filha dos outros nem mulher casada, e mais que é que nem cobra má, que quem vê tem de matar por obrigação… (ROSA, 2015a, p. 294)

Irritado, Augusto foi tirar satisfação com o major, antes de viajar para matar Ovídio e Dionóra. Quando chegou à chácara de Consilva, mal teve tempo de descavalgar e foi logo atacado por pauladas desferidas pelos seus ex-capangas. Por ordem do major, arrastaram a vítima até um barranco, num caminho de pragas e judiação que lembra a via sacra de Jesus Cristo – na primeira lembrança do texto à Bíblia. Lá, ele foi marcado com ferro quente na “polpa glútea direita”, ao que Augusto reagiu com um berro e um salto medonhos. Desse salto, conseguiu chegar à beira do penhasco. Antes que fosse agarrado pelos torturadores, pulou. Não era possível ver o corpo, devido às moitas, e ninguém foi confirmar a morte. Armaram uma cruz no topo do morro, mas Augusto havia sobrevivido. Um verdadeiro mistério de fé.

Chegamos ao pé do morro onde caiu Augusto e onde foi socorrido por Serapião e Quitéria – um casal de negros, informação relevante dado o contexto escravocrata do título nhô. Inicialmente, acharam que Matraga estava morto, porém ele abriu os olhos e pediu que o matassem de vez. Não o mataram e deram abrigo a ele. Como resultado da violência, quebrou um braço, as duas pernas e também algumas costelas. Partido, começa a se reconstituir não apenas no corpo, mas em pensamento: “disse a si que era melhor viver”. Naquele dia, o Augusto malvado começou a se transformar, a se arrepender do passado e a sentir falta da família.

Esfriou o tempo, antes do anoitecer. As dores melhoraram. E, aí, Nhô Augusto se lembrou da mulher e da filha. Sem raiva, sem sofrimento, mesmo, só com uma falta de ar enorme, sufocando. Respirava aos arrancos, e teve até medo, porque não podia ter tento nessa desordem toda, e era como se o corpo não fosse mais seu. Até que pôde chorar, e chorou muito, um choro solto, sem vergonha nenhuma, de menino ao abandono. E, sem saber e sem poder, chamou alto soluçando:

— Mãe… Mãe… (ROSA, 2015a, pp. 298-299)

O tempo passou e certa noite, o casal trouxe um padre para visitar o hóspede. Foi ele quem tirou Augusto do torpor em que se encontrava, algo análogo à depressão. O sacerdote recomendou que se mudasse para longe e reconstruísse a vida em penitência. Esse castigo seria trabalhar todos os dias e ajudar os outros sempre que pudesse. Quando voltou a andar, com muletas, resolveu partir para um sítio distante. Na noite de partida, ajoelhou na estrada e disse: “Eu vou p’ra o céu, e vou mesmo, por bem ou por mal!… E a minha vez há de chegar… P’ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!”. Partiu rumo ao Tombador, junto dos negros.

Eis que um dia surge do norte um bando de jagunços cujo chefe era o homem mais afamado do sertão: Seu Joãozinho Bem-Bem. Ao homem e seu grupo, Augusto ofereceu abrigo em sua casa. Após conversarem, Joãozinho perguntou se Matraga sabia atirar. Ele pegou a arma e atirou contra um pássaro – errou o primeiro, mas acertou o segundo disparo. No dia seguinte, na despedida, Bem-Bem convidou Augusto a se juntar aos demais, tentação a que ele recusou.

Nesse sertão de leis e costumes peculiares, ilustrado por Guimarães Rosa, o personagem principal passou a viver no Tombador um período semelhante ao que viveu Jesus Cristo na quaresma. Durante 40 dias após seu batismo, o filho de Deus se retirou ao deserto em jejum. Nesse período, foi tentado pelo diabo, mas resistiu. Vencendo as tentações, Jesus mandou o demônio embora e “os anjos se aproximaram para servi-lo” (BÍBLIA, Mateus, 4, 11). O retiro do nhô durou quase mais seis anos e em certo momento entendeu que tentar se afastar do diabo é difícil e que o castigo de Deus a ele era duro demais. Augusto começou a sentir saudade das mulheres e a ter uma nova força de vida, “que era um regresso e um ressurgimento”.

Assim, decidiu partir do Tombador. Um amigo quis emprestar-lhe um jegue, que só aceitou após insistência de Quitéria – a quem chamava de mãe: o jumento é um animal “meio” sagrado, visto em passagens de vida de Jesus. Sozinho, galopou até o Rala-Coco. Sua chegada é semelhante à de Cristo em Jerusalém pouco antes de este ser traído e condenado à cruz:

Apanharam ramos de palmeiras e saíram ao seu encontro, gritando: “Hosana! Bendito aquele que vem em nome do senhor, o Rei de Israel!”. Jesus encontrou um jumentinho e montou nele, como está escrito: “Não temas, filha de Sião! Eis que o teu rei vem montado num jumentinho!”. (BÍBLIA, João, 12, 13-15)

Mal havia chegado, notou uma multidão assustada, preocupada com a chegada da jagunçada de Joãozinho Bem-Bem, que recebeu Augusto na casa de um fazendeiro e explicou a situação: Juruminho, um capanga, havia sido morto, e o bando estava lá para cumprir vingança. Com um homem a menos, o chefe do grupo novamente convidou Matraga a trabalhar com ele. Novamente o convite foi recusado, mesmo após Augusto ter pegado nas mãos a arma que pertenceu ao homem assassinado. De repente, o pai do matador chega e se ajoelha aos pés de Joãozinho, pedindo clemência em nome de Deus, de Cristo e da Virgem Maria para o autor do crime, que havia desaparecido. O jagunço não deu perdão e ordenou ao velho que escolhesse um dos dois filhos homens para morrer. Nhô Augusto intercedeu: “o que vocês estão querendo fazer em casa dele é coisa que nem Deus não manda e nem o diabo não faz”.

Foi então que começou o trágico desfecho da história. Augusto e Joãozinho discutiram, apesar da amizade: Matraga disse que só por cima de seu defunto Bem-Bem poderia matar alguém. “Nomopadrofilhospritossantamêin”, foi o que disse um dos presentes, resumindo o sentimento dos espectadores. Começou o tiroteio, na casa do fazendeiro. Os dois foram para o lado de fora, já com facas nas mãos, sorrindo. Augusto esfaqueou o jagunço do púbis ao estômago, mas também foi atingido do nariz à boca. Quando estavam os dois caídos ao chão, feridos, Joãozinho se orgulhou de morrer pela faca do “homem mais maneiro” que conheceu.

Ainda consciente, Augusto revelou sua identidade aos presentes. Encontrava ali a sua hora e a sua vez. Reconhecido por um homem chamado João Lomba, apenas penas pediu: “põe a benção na minha filha” e “fala com a Dionóra que está tudo em ordem”. Depois, morreu. Desde momentos antes, o povo já dizia: “Foi Deus quem mandou esse homem no jumento, por mór de salvar as famílias da gente!”.


Leia todo o artigo:
19/08/2017 – Resumo, abstract e referências bibliográficas
26/08/2017 – Introdução
02/09/2017 – Criador…
09/09/2017 – …e criatura
16/09/2017 – Você está aqui
23/09/2017 – O herói e sua jornada
30/09/2017 – A trajetória de Augusto
07/10/2017 – Considerações finais

7 comentários em “A hora e a vez #5

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