A hora e a vez #6


O herói e sua jornada

Como já dissemos, o objetivo deste trabalho é verificar se a saga de Augusto Matraga segue o padrão da jornada descrita por diversos autores, mas proposta pioneiramente por Joseph Campbell no livro O herói de mil faces, no qual ele afirma que o herói é o homem da submissão autoconquistada (CAMPBELL, 2007, p. 26). Antes, todavia, é preciso observar o que a literatura considera um herói e qual o perfil desse tipo de personagem.

De acordo com Jacques Le Goff, herói era na Antiguidade uma denominação para figuras fora do comum, corajosas, vitoriosas, que não fossem deuses ou semideuses (2009, p. 15). A partir da Idade Média e a disseminação do cristianismo no lado ocidental do planeta, a imagem do herói passa a ser substituída por novos tipos de homens – como os santos, os mártires e os reis coroados pela providência divina. Ainda que tenha havido uma mudança na essência da palavra de origem grega, algumas características desse tipo de personagem permaneceram comuns: cada herói está intimamente ligado a lugares, sejam de batalha, de vida, amor ou morte. Além disso, os heróis estão estritamente ligados à religião e, seguindo a lógica bíblica, tendem a realizar uma grande separação entre Deus e o diabo, o bem e o mal, o certo e o errado no comportamento dos seres heroicos etc. Em Heróis e Maravilhas da Idade Média, Jacques Le Goff indica também um detalhe importante sobre a natureza desses personagens:

(…) na Europa cristã – característica que se mantém até hoje –, não existe herói todo-poderoso nem maravilha sem um lado inverso. O herói é apenas um homem, todo homem é pecador, e à fidelidade feudal opõe-se inevitavelmente a traição dos malfeitores. (LE GOFF, 2009, p. 41-42)

Essa informação é extremamente útil para uma leitura detalhada da obra de João Guimarães Rosa e nos passa a uma discussão sobre a natureza humana. Sobre isso temos os exemplos da tábula rasa de John Locke; de que o homem é bom e a sociedade o corrompe, de Jean-Jacques Rousseau; de que o homem é lobo do homem, conforme Thomas Hobbes; e tão radical quanto esta, a ideia maquiavélica publicada em O Príncipe:

(…) os homens geralmente são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ambiciosos de dinheiro, e, enquanto lhes fizeres bem, todos estão contigo, oferecem-te sangue, bens, vida, filhos, (…) desde que a necessidade esteja longe de ti. (MAQUIAVEL, 2014, p. 50)

 

Basicamente, todas essas principais teorias tradicionais, publicadas entre os séculos XVI e XVIII, contribuem para o enriquecimento do termo herói, que pretende, portanto, construir um ser humano humano de fato, no tocante ao maniqueísmo de ações, porém com qualidades ou atos realizados dignos de destaque na sociedade em que vivem. Mais que isso, o ambiente e os personagens coadjuvantes influenciam a obra heroica, como veremos especificamente na teoria da jornada. Dessa forma, ousamos afirmar o seguinte: “o que quer que toque a vida humana ou entre em duradoura relação com ela, assume imediatamente o caráter de condição da existência humana” (ARENDT, 2007, p. 17).

Essas características podem ser observadas ao longo de A hora e vez de Augusto Matraga, como apontaremos após analisar as fases da Jornada do Herói dentro da mesma novela. Estudada pela primeira vez por Joseph Campbell, o a teoria foi aperfeiçoada posteriormente por Christopher Vogler, por Edvaldo Pereira Lima e por Monica Martinez, tendo os dois últimos focado a construção de histórias de vida em jornalismo. Com seus trabalhos, Campbell observou que há uma trajetória comum a basicamente todas as histórias. Não menos importante, formulou um esquema que nos apontou rumos para a construção de roteiros a partir de um esquema pré-definido, ainda que esse não tenha sido seu propósito.

Temos apenas que seguir o fio da trilha do herói. E ali onde pensávamos encontrar uma abominação, encontraremos uma divindade; onde pensávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos; onde pensávamos viajar para o exterior, atingiremos o centro da nossa própria existência; e onde pensávamos estar sozinhos, estaremos com o mundo inteiro (CAMPBELL, 2007, pp. 31-32)

Joseph Campbell, em seus estudos, verificou a existência de uma estrutura central que ajuda a compor histórias ao redor do mundo e ao longo dos anos. Essa estrutura contém três níveis: a partida, a iniciação e o retorno da personagem. Nessas fases, o herói se vê diante de uma aventura e encontra aliados, inimigos, musas, tentações, dificuldades, vitórias e uma redenção final, entre, evidentemente, outras etapas. Ele aponta 17, ao todo. Aqui, contudo, utilizaremos a proposta de Monica Martinez em sua tese de doutoramento apresentada à Universidade de São Paulo (USP). Mais atual, o esquema da autora também é composto por três fases, porém com 12 etapas – igual em número ao sugerido por Vogler (2006) e menos aberto que os oito níveis de Edvaldo Pereira Lima (apud MARTINEZ, 2008, p 64).

A primeira parte da jornada de Martinez é a partida, composta por quatro níveis, a saber: cotidiano, chamado à aventura, recusa e travessia do primeiro limiar. O cotidiano é a fase inicial do texto na qual se traça o perfil do protagonista, forma de apresentá-lo ao público, relevando suas alegrias, tristezas, insatisfações, defeitos, inquietações e conflitos. Já o chamado à aventura será um acontecimento que mudará a vida, os planos do personagem; a recusa a esse chamado acontecerá por receios, medos, laços familiares ou amorosos, dúvidas e até mesmo pressão social. A travessia do primeiro limiar vai trazer ao enredo os chamados guardiões (pessoas influentes), que advertem o herói sobre seus limites. Na fase inicial, Joseph Campbell analisa que o protagonista enfrentará uma jornada não só física, mas psicológica:

a primeira tarefa do herói consiste em retirar-se da cena mundana dos efeitos secundários e iniciar uma jornada pelas regiões causais da psique, onde residem efetivamente as dificuldades, para torná-las claras, erradicá-las em favor de si mesmo (…) e penetrar no domínio da experiência e da assimilação, diretas e sem distorções, daquilo que C. G. Jung denominou “imagens arquetípicas” (CAMPBELL, 2007, p. 27)

 

Ao passarmos à segunda fase da trajetória, a iniciação, temos mais cinco níveis. Começando pela etapa dos testes, aliados e inimigos, vemos nela surgirem mentores, aliados, traidores, inimigos, simples adversários e os chamados “misteriosos”, que a cada momento parecem assumir posição diferente em relação ao protagonista. Daí chegamos à caverna profunda, quando a história se encaminha para a principal provação ao objetivo final da aventura. A provação suprema vai envolver o enfrentamento da morte e dos medos, com o renascimento do protagonista. Na segunda etapa também está previsto o encontro com a Deusa (ou o Deus), quando um homem ou uma mulher passa a ser fonte de inspiração para o herói. Por fim, há a recompensa, em que a vitória (ou a derrota) na batalha dá novo sentido à vida, tornando a pessoa um ser humano melhor, afinal, “ao se deparar face a face com a morte, a vida assume um gostinho mais doce e intenso” (MARTINEZ, 2008, p. 94).

Composta de três fases, a terceira parte da jornada do herói – o retorno – tem por objetivo concluir o enredo, a partir do caminho de volta. Neste nível, o herói, com sua história, passa a ser importante para a humanidade. Há também a ressurreição, o clímax da obra, quando há a última e mais perigosa provação, que pode ser fatal. E, encerrando o ciclo, notamos o retorno com elixir, em que o personagem retorna ao cotidiano, com uma visão mais ampla que os demais e passa a ser mentor de outras pessoas, deixando suas ambições iniciais de lado, para viver o que Monica Martinez chama de missão (2008, p. 111).

É interessante observar que, com o final da história, o protagonista vai atingir uma personalidade superior que é uma expressão do si mesmo e que seu ato principal é vencer o “monstro da escuridão”, uma vitória esperada da consciência sobre o inconsciente, segundo afirma Carl Jung (2000, p. 168). Essa vitória nada mais é, afinal, do que uma série de transformações comuns a todos os seres humanos.

Percorremos um círculo completo, do túmulo do útero ao útero do túmulo: uma ambígua e enigmática incursão num mundo de matéria sólida prestes a se diluir para nós, tal como ocorre com a substância do sonho. E, rememorando aquilo que prometia ser nossa aventura – ímpar, imprevisível e perigosa ­–, tudo o que encontramos, no fim, é a série de metamorfoses padronizadas pelas quais homens e mulheres, em todas as partes do mundo, em todos os séculos de que temos notícia e sob todas as aparências assumidas pelas civilizações, têm passado. (CAMPBELL, 2007, p. 23)


19/08/2017 – Resumo, abstract e referências bibliográficas
02/09/2017 – Criador…
09/09/2017 – …e criatura
16/09/2017 – Hora e vez
23/09/2017 – Você está aqui
30/09/2017 – A trajetória de Augusto
07/10/2017 – Considerações finais

5 comentários em “A hora e a vez #6

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