A hora e a vez #7


A trajetória de Augusto

A partir da teoria da jornada do herói, passamos a analisar se é possível identificar cada uma das etapas propostas no universo da novela A hora e vez de Augusto Matraga. A vida do protagonista, assim como a da maior parte dos heróis, está muito ligada a lugares. São esses ambientes que vão servir de fronteira para a observação que vamos fazer. Sendo assim, a primeira parte da jornada – a partida – acontece no Murici; a iniciação, no Tombador; e, por fim, o retorno se dá no Rala-Coco. É válido destacar que essa é apenas uma das interpretações possíveis para o texto roseano em questão. Optamos pela divisão por locais tendo em vista que a ambientação é ponto nevrálgico da narrativa, voluntária ou involuntariamente.

A partida da aventura de Augusto começa pela apresentação do cotidiano. E como se mostra essa fase? Matraga é apresentado como o filho de um coronel de posses, rico e temido e nhô de vários capangas. Casado e com uma filha, gosta de esbanjar dinheiro e demonstra isso na primeira cena: após uma reza, atrás da igreja, compra uma mulher em leilão por um preço 10 vezes maior que o oferecido por outro candidato. O detalhe dessa gastança é importante, como veremos adiante. Além disso, Augusto é cruel e tem certo prazer em humilhar as pessoas.

A apresentação tem o objetivo de mostrar a índole do protagonista, que passa então ao chamado à aventura. Muito sútil, esse chamado é o ponto que vai desencadear toda a trama. No caso do texto de Sagarana, isso começa com o encontro (após o leilão) de Augusto Estêves com Quim Recadeiro, que trazia mensagem de Dionóra: o marido deveria ir para casa. O nhô, que viajaria com a família, não foi e mandou que ela e a filha partissem sozinhas. Insatisfeita, a mulher seguiu viagem, mas desviou o percurso para fugir com Ovídio, de quem se tornou amante. Ao ficar sabendo, Augusto prometeu matá-los. “Chama os meus homens!”, ordenou.

A terceira etapa da primeira parte da jornada é a recusa ao chamado de que falamos. Essa fase nada mais é do que “essencialmente uma recusa a renunciar àquilo que a pessoa considera interesse próprio” (CAMPBELL, 2007, p. 67). Tanto Joseph Campbell quando Monica Martinez indicam que essa fase não é obrigatória, ou seja, o protagonista pode ou não aceitar de pronto o destino que lhe é oferecido. É o que acontece com Augusto Matraga. Ele adia a morte da esposa do amante para tirar satisfações com Major Consilva, que havia contratado seus capangas. Porém, Augusto faz isso unicamente porque sozinho é mais fraco; até aqui, ele demonstra coragem em todos os seus atos, sem fugir às consequências.

A travessia do primeiro limiar encerra a partida da história. Aqui, o personagem principal vai ultrapassar os limites comuns e previsíveis do enredo para iniciar de fato uma aventura. Eventualmente, podem haver guardiões, tipo de defensores que

guardam o mundo nas quatro direções – assim como em cima e embaixo –, marcando os limites da esfera ou horizonte de vida presente do herói. Além desses limites, estão as trevas, o desconhecido e o perigo, da mesma forma como, além do olhar paternal, há perigo para a criança e, além da proteção da sociedade, perigo para o membro da tribo (CAMPBELL, 2007, p. 82).

Essa figura aparece bastante distorcida em A hora e vez. Quim Recadeiro sempre aparece como uma espécie de mentor em toda a primeira etapa – pela profissão, é o dono de conhecimentos e informações importantes. O Major Consilva, por sua vez, é o proprietário do destino de Augusto – e é ele quem vai condenar o protagonista à morte. Os ex-comparsas de Matraga são aqueles que vão executar o destino traçado para o antigo chefe, mas não fazem isso direito e, depois de espancá-lo, dão margem à efetiva travessia do limiar, representada no trecho abaixo e identificada como uma passagem da vida para a morte e da morte para a vida – já que Augusto Estêves sobrevive à violência.

E, aí, quando tudo esteve a ponto, abrasaram o ferro com a marca do gado do Major – que soía ser um triângulo inscrito numa circunferência –, e imprimiram-na, com chiado, chamusco e fumaça, na polpa glútea direita de Nhô Augusto. Mas recuaram todos, num susto, porque Nhô Augusto viveu-se, com um berro e um salto, medonhos.

– Segura!

Mas já ele alcançara a borda do barranco, e pulara no espaço. Era uma altura. O corpo rolou, lá em baixo, nas moitas, se sumindo. (ROSA, 2015a, p. 297)

A segunda parte da Jornada do Herói – a iniciação – começa após a travessia, com a fase de testes, aliados e inimigos, contribuição de Vogler para a proposta de Martinez e com etapa equivalente em Campbell, sob a denominação de estrada de provas. Agora, o personagem precisa desbravar um novo mundo, com apoios e pessoas que o atrapalham. É o que acontece com Serapião e Quitéria. O casal cuida como um filho do homem ferido, que passa a chamá-los de pai e mãe. Parte deles toda a influência, especialmente a religiosa (bastante importante para o enredo a partir daqui), sobre o protagonista e a vida que ele passa a ter e o futuro que ele passa a traçar algum tempo após se recuperar. A figura do padre, convidado pelo casal para ajudar, é importante influência para um Matraga ferido:

– Você nunca trabalhou, não é? Pois, agora, por diante, cada dia de Deus você deve trabalhar por três, e ajudar os outros, sempre que puder. Modere esse mau gênio: faça de conta que ele é um poldro bravo, e que você é mais mandante do que ele… Peça a Deus assim, com esta jaculatória: “Jesus, manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao vosso…” (ROSA, 2015a, p. 300)

Essa fase pode ser vista também como uma união com o ventre da baleia, sugerido por Campbell (mas não por Monica Martinez) antes do caminho de provas, já que o período após a travessia do primeiro limiar até (ou ao mesmo tempo em que há) o desenvolvimento de aliados e inimigos e o enfrentamento de testes envolve um período de reflexão com renascimento do personagem. O ressurgimento e as pequenas provações do dia-a-dia incluem desde a vontade de voltar, ou de ter morrido de verdade, até a vergonha de ter sido quem foi.

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Tudo isso serve para levar nosso protagonista à caverna profunda, que vai nos encaminhar ao primeiro grande desafio após a travessia do limiar. Na caverna, o personagem passa por uma internalização, necessária para compreender seu momento de transformação.

O bom jogador se prepara o máximo que pode, avaliando suas reais chances e estudando o jogo do adversário. Caso se sinta previamente condicionado pode simplesmente se dar ao luxo de relaxar e curtir os últimos momentos de descanso antes de partir para a batalha.

Caso negativo, ainda dá para reconhecer o terreno, angariar mais informações, treinar alguns músculos e exercitar o pensamento positivo. (MARTINEZ, 2008, p. 89)

No caso de Augusto Matraga, não há inimigo identificado nesse momento específico do texto. Contudo, o nhô passa a olhar para si, refletindo sobre sua vida e já valorizando uma fé influenciada por Serapião e Quitéria. O personagem central da novela “tomara um tão grande horror às suas maldades e aos seus malfeitos passados, que nem podia se lembrar” e com seu trabalho resolveu reconstruir a vida em outro lugar. Com o casal de negros, partiu certa noite e chegou ao povoado do Tombador, onde durante anos só o que fez foi trabalhar. Esse é o segundo local da obra, no qual vão acontecer as principais cenas da segunda etapa da jornada.

E toda a provação suprema, que talvez não seja tão suprema assim – dada a sutilidade e a delicadeza da narrativa de João Guimarães Rosa –, se inicia com a chegada do temido Joãozinho Bem-Bem ao povoado. Augusto estava amuado naquele dia e, não se sabe ao certo o motivo, correu ao encontro do jagunço e ofereceu hospedagem a ele. Oito pessoas ao todo ficaram na casa e o casal Separião e Quitéria teve um grande trabalho para preparar comida para o grupo, que ficou amigo de Matraga. O protagonista demonstrava estar encantado com as histórias que Joãozinho contava e ficou ainda mais feliz quando, antes de jantarem, fizeram o sinal da cruz sobre o peito. Depois de comerem, falando sobre armas, a jagunçada se espantou com a pontaria de Augusto, que deu tiro em galho.

Já afirmamos que Nhô Augusto passou por um período análogo ao de Jesus no deserto, durante a quaresma em que foi tentado pelo diabo. Na obra de Guimarães Rosa, Joãozinho Bem-Bem representa esse demônio da tentação:

– Mano velho, o senhor gosta de brigar, e entende. Está-se vendo que não viveu sempre aqui nesta grota, capinando roça e cortando lenha… Não quero especular coisa de sua vida p’ra trás, nem se está se escondendo de algum crime. Mas, comigo é que o senhor havia de dar sorte! Quer se amadrinhar com meu povo? Quer vir junto? (ROSA, 2015a, p. 312)

Apesar de uma recusa rápida, fica clara a hesitação de Augusto. Isso indica que, caso houvesse insistência por parte de Bem-Bem, talvez o personagem mudasse a ideia. Quando partiram, Matraga ficou com certa inveja da vida que o grupo levava e avaliou que, unindo-se a ele, poderia se vingar da esposa e do amante, de Consilva, e retomar a identidade que tinha antes de ter pulado do barranco. Mas ele estava totalmente preso à penitência dada pelo padre.

Identificado o problema da penitência e vencida a provação, chegamos à fase do encontro com a Deusa. Estamos seguindo aqui a ordem estipulada por Martinez, contudo, cabe destacar que as etapas não seguem necessariamente esse rigor de organização nem todas são obrigatórias. Já vimos que não houve recusa ao chamado e vemos agora que não há nitidamente uma Deusa inspiradora e motivadora do protagonista de A hora e vez, no sentido do amor de esposa. É possível, todavia, indicar a representatividade da figura da mãe no contexto da história. Quando estava ferido, era por sua genitora que Augusto chamava. Depois, elevou Quitéria a esse título e com ela passou a se aconselhar antes de qualquer situação. Foi também ela que deu a ideia de, assim como Cristo, utilizar um burro para entrar triunfante numa nova vida. Assim como a figura auxiliar de Quitéria, a Deusa atrai e guia o personagem e “lhe pede que rompa os grilhões que o prendem”, conforme Campbell (2007, p. 117).

A recompensa é a chave que fecha o ato de iniciação do protagonista. “Nas lendas, histórias e mitos, este é o ponto em que o herói da narrativa transcende a vontade de viver puramente para satisfazer seus desejos pessoais”, explica Martinez (2008, p. 98). Depois de vários anos de trabalho pesado e de prestação de serviço aos outros, Augusto Matraga, a essa altura, começava a pensar em si próprio. Notou que estava exagerando no cumprimento da penitência dada pelo padre e que era difícil viver seguindo totalmente as regras da religião. Sonhava novamente em ser um jagunço valente.

E ainda outras coisas tinham acontecido, e a primeira delas era que, agora, Nhô Augusto sentia saudades de mulheres. E a força da vida nele latejava, em ondas largas, numa tensão confortante, que era um regresso e um ressurgimento. Assim, sim, que era bom fazer penitência, com a tentação estimulando, com o rasto no terreno conquistado, com o perigo e tudo. Nem pensou mais em morte, nem em ir para o céu; e mesmo a lembrança de sua desdita e reveses parou de atormentá-lo, como a fome depois de um almoço cheio. Bastava-lhe rezar e aguentar firme, com o diabo ali perto, subjugado e apanhando de rijo, que era um prazer. (ROSA, 2015a, p. 314)

O prêmio por sua penitência e sua transformação no período de “exílio” foi partir, já sem o casal que o acolheu, para um novo lugar, onde recomeçaria sua vida. Queria encontrar sua hora e sua vez. Então, determinado dia saiu do Tombador, montado em um burro. É a partir daí que completamos a segunda parte da jornada e chegamos à terceira – o retorno – que começa com a entrada de Augusto Matraga no arraial do Rala-Coco. A trajetória que o leva até esse ambiente é a etapa do caminho de volta. Ainda que não volte para o Murici, onde começou a história, o narrador nos indica que ele está bem próximo de lá. A volta, portanto, não é para um local, mas para um universo, para uma sociedade. E o povo que recebeu um feliz protagonista montado em um burro estava desesperado e assustado.

O sentimento dos moradores do Rala-Coco é determinante na ação que Augusto enfrentará no nível da ressurreição, que nada mais é senão o clímax da novela. Segundo Monica Martinez, este é o último e mais perigoso encontro do personagem com a morte e a etapa que confirma as mudanças registradas no texto por meio de atitudes e pensamentos (2008, p. 104). Na história, se configura pelo reencontro com um Joãozinho Bem-Bem em busca de vingança pelo assassinato de um capanga, pela súplica do pai do matador, pela determinação do jagunço para que o velho escolhesse um de seus filhos para morrer e, por fim e mais importante, pela discordância de Augusto com a vontade de Joãozinho. “Tem que passar primeiro por riba de eu defunto”, disse Matraga, após a insistência do jagunço em cumprir a vingança.

O que acontece a seguir já foi relatado anteriormente, no resumo que fizemos sobre o texto: tiros e facadas, sangue e os dois personagens caídos ao chão, em meio ao povo.  Perto do último suspiro, Joãozinho ainda elogiou o amigo: “morro, mas morro na faca do homem mais maneiro de junta e de mais coragem que eu já conheci”. Ferido, Augusto só se deixou socorrer após os moradores do arraial confirmarem a morte do jagunço. Quando Bem-Bem já tinha “batido com o rabo na cerca”, o desfecho da história estava determinado. Saímos, assim, do nosso clímax, para a última etapa da Jornada do Herói: o retorno com elixir.

Sobre o nível final da narrativa, cabe ressaltar que o protagonista não é mais aquele do começo da história. Ele é uma criatura “evoluída” no que tange à experiência de vida e tem uma visão dessa vida muito mais ampla que o público que assiste ao seu desfecho ali no Rala-Coco. O elixir que traz consigo é algo destinado a restaurar a sociedade, no caso, com uma moral, como é típico da obra de Guimarães Rosa, especialmente em Sagarana. No retorno, as ambições do personagem têm peso menor do que a missão a que ele foi destinado. “Ele ainda está no mundo, porém de forma mais relaxada. Não briga mais com o cotidiano, deixa-se fluir com ele”, ensina Monica Martinez (2008, p. 111).

Na última etapa, Matraga pediu a presença de um padre, impediu o povo de ofender o jagunço morto e, finalmente, voltou à sua identidade: “perguntem quem é aí que algum dia já ouviu falar no nome de Nhô Augusto Estêves, das Pindaíbas”. Reconhecido, teve sua coragem admirada por todos os presentes. O velho que pediu clemência a Joãozinho Bem-Bem mandou chamar os filhos para beijar os pés do salvador. Antes disso, outras pessoas gritavam que “foi Deus quem mandou esse homem no jumento, por mór de salvar as famílias da gente”.  Augusto pouco se importou com tudo isso. Antes de encerrar seu ciclo, ele ainda tinha um recado a dar.

Então, Augusto Matraga fechou um pouco os olhos, com sorriso intenso nos lábios lambuzados de sangue, e de seu rosto subia um sério contentamento.

Daí, mais, olhou, procurando João Lomba, e disse, agora sussurrado, sumido:

– Põe a benção na minha filha… seja lá onde for que ela esteja… E, Dionóra… Fala com a Dionóra que está tudo em ordem!

Depois, morreu. (ROSA, 2015a, p. 325).

Assim, Augusto Matraga encontrou sua hora e sua vez, ao defender o povo da violência de um amigo. Não por traição, como seus antigos comparsas fizeram a mando do Major Consilva, mas por piedade tanto do velho que teria um filho assassinado quanto do próprio Joãozinho Bem-Bem, a quem queria livrar do inferno. Esse martírio de Augusto Estêves pode ser comparado ao de santos ou ao do próprio Jesus Cristo na cruz, ao lado de dois criminosos – algo redentor para o personagem e para a humanidade. Assim, apesar da morte do protagonista, o ciclo é concluído com o cumprimento de todos os pilares básicos propostos na Jornada do Herói – fato que indica que a narrativa de Guimarães Rosa é iminentemente mitológica.


19/08/2017 – Resumo, abstract e referências bibliográficas
26/08/2017 – Introdução
02/09/2017 – Criador…
09/09/2017 – …e criatura
16/09/2017 – Hora e vez
23/09/2017 – O herói e sua jornada
30/09/2017 – Você está aqui
07/10/2017 – Considerações finais

7 comentários em “A hora e a vez #7

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