A hora e a vez #8


Considerações finais

Massaud Moisés afirmou que “espécie de divisor de águas e de realizador de altas ambições do Modernismo, Guimarães Rosa constitui o ‘caso’ mais rumoroso de nossa história literária atual” (2012, p. 567), com a transformação que fez do romance nordestino ideologicamente orientado para um regionalismo de tendência mítica. É desse entendimento que partiu a vontade de verificar as características da mitologia na obra do autor mineiro: comprovar cientificamente aquilo que é dado como definitivo, na prática.

Assim, verificamos que toda a obra de João Guimarães Rosa, e especificamente Sagarana (e dentro deste, A hora e vez de Augusto Matraga), são compostas por uma narrativa poética, que vai remeter a séculos distantes, quando Homero compôs Ilíada e Odisseia, e até mesmo quando Dante Alighieri escrever A Divina Comédia, guardadas as proporções. Fora o exemplo pragmático disso, o próprio escritor mostra uma vontade de trabalhar a linguagem não em estado sólido ou líquido, mas sim gasoso. É o que de fato consegue, com sua inovação.

Uma maneira encontrada por nós para verificar se A hora e vez é um texto mitológico foi aplicar à novela a teoria da Jornada do Herói, descoberta por Joseph Campbell. Aqui, utilizamos uma versão mais recente, atualizada por Monica Martinez para o jornalismo. A escolha se deve ao esquema mais enxuto e próprio para a análise literária que pretendíamos. A partir dela, verificou-se que a narrativa roseana se encaixou em praticamente todas as fases da partida, da iniciação e do retorno do personagem, com exceção da recusa ao chamado e, de certa forma, do encontro com a Deusa.

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Ao longo do nosso estudo, também pudemos observar que Augusto Estêves – ou Nhô Augusto, ou ainda Augusto Matraga – se encaixa nas características de herói descritas por Jacques Le Goff. O personagem tem uma natureza ambígua, é ligado a lugares, e tem uma personalidade fora do comum devido à sua coragem, à força e às habilidades que desenvolve no decorrer da narrativa, mas também pelo desafio final que resulta em seu martírio. Augusto (numa analogia à história de Jesus Cristo) dá sua vida para salvar a de outras pessoas e acaba por matar Joãozinho Bem-Bem, o mais bravo de todos os jagunços, segundo Riobaldo nos revelou em Grande Sertão: Veredas (ROSA, 2015b, p. 26).

A presente pesquisa buscou comprovar, em uma de muitas novelas, uma característica atribuída a João Guimarães Rosa: a de que suas histórias são mitológicas. Alfredo Bosi mais do que isso, usou o termo mitopoética. Nossa análise partiu de uma das teorias possíveis para concluir a iminência do mito em A hora e vez e, com esse “estudo de caso”, espera incentivar que se observe mais a composição e os atributos de cada texto do autor, fonte de criatividade e riqueza linguística, com muitos detalhes a serem ainda descobertos. Em 2017, quando se completam 50 anos desde a morte de Rosa, esta é também uma forma de homenagem.


19/08/2017 – Resumo, abstract e referências bibliográficas
26/08/2017 – Introdução
02/09/2017 – Criador…
09/09/2017 – …e criatura
16/09/2017 – Hora e vez
23/09/2017 – O herói e sua jornada
30/09/2017 – A trajetória de Augusto
07/10/2017 – Você está aqui

7 comentários em “A hora e a vez #8

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