Cinquenta em cinco


Se só quem ama conhece a Deus, como disse São João, eu posso dizer que sou o melhor amigo do divino. E eu descobri isso há exatamente cinco anos, quando em uma praça enfeitada pela primavera olhei pela primeira vez nos olhos dela. E esse olhar era como o mais bonito entardecer. E foi assim que, já apaixonado, me entreguei.

Outro dia li que há pessoas que já começam a amar amando, ou começam a namorar amando. Foi o que aconteceu comigo. Muitos anos antes de nos reencontrarmos, quando nossos olhares se cruzavam na escola, já dava para saber que havia algo diferente. Lá, a timidez nos separava. E olha que eu era aquela pessoa que conversava com todos, até com a porta.

Cinco meses e dois dias antes de exatos cinco anos atrás, nos falamos pela primeira vez. Graças ao Jornalismo e, depois, ao Corinthians, vale ressaltar. E os papos, que duravam geralmente das 18 às 22 horas, de segunda até sexta-feira, se tornaram essenciais. Um compromisso involuntariamente marcado que fazia falta quando descumprido.

Em um piscar de dois olhos, nasceu a amizade. E na piscada de apenas um olho, o direito, uma flecha foi lançada diretamente no centro do meu coração: era amor. E como eu sabia? Não sei. Só sei que era e a gente sabe quando é amor quando sente esse sentimento pela primeira vez na vida. E, sendo amor, já não dava para escapar.

Não havia fuga.

Então, restava a entrega. E ela aconteceria no dia 15 de novembro de 2012, feriado que caiu numa quinta-feira. Só que a emoção foi mais forte e a timidez fez com que o encontro acontecesse apenas dois dias depois, sábado. Um dia em que literalmente enfiei o pé na lama. Tropecei na minha própria vergonha, mas valeu a pena: a fiz rir pela primeira vez.

E cada sorriso, desde então, tem sido a minha razão de sorrir também.

heart_rose_love-wallpaper-1366x768

De lá para cá se passaram cinco aniversários dela e cinco meus, cinco dias dos namorados, cinco comemorações do nosso primeiro oi, sessenta mensagens em lembrança aos nossos aniversários mensais, 1.826 dias com mais de uma bíblia de conversas no Facebook, no WhatsApp e verbalmente. Agora, são exatamente cinco anos desde que eu descobri o amor.

Mas cinco é um número tão pequeno perto de tudo que a gente viveu, desde os momentos mais felizes até os mais difíceis (como a morte do meu pai, que foi cremado no dia em que comemorávamos nosso primeiro mês juntos), que prefiro tomar posse da expressão usada por Juscelino Kubitschek: na verdade, são cinquenta anos em cinco.

Em tão pouco tempo – quase um quinto da nossa idade, vá lá – descobri as várias faces e formas de um sentimento tão singular. Em tão pouco tempo amadureci realmente (apesar de ser bastante tonto no que se refere a menes). Em tão pouco tempo aprendi que a minha vida só é completa porque tenho ao meu lado uma pessoa que é a verdadeira essência de Deus.

E é tão incrível poder dizer isso sem pestanejar. Se Deus criou alguém exatamente igual a ele, em imagem e semelhança, essa pessoa não poderia ser outra senão aquela a quem todas as manhãs, entre 5 e 6 horas, eu digo bom dia e a quem eu faço questão de acompanhar em consultas médicas, na padaria e até mesmo na manicure. E é bem tedioso, diga-se.

Só que não existe motivo para reclamar, muito pelo contrário.

Tudo fica diferente e mais fácil quando a gente se sente repleto de uma coisa que a gente não sabe como explicar: o amor verdadeiro. E l’amour realmente é un je ne sais quoi, qui semblé je-ne-sais-où, et qui finit je-ne-sais-quand, como disse a mademoiselle de Scudéry. Mas ninguém precisa de definição.

Precisamos apenas amar e amar mais. Nada além.

Porque hoje, cinco anos depois de descobrir que eu amo (e amo tão completamente que chego a fingir que é amor o amor que deveras sinto), eu sei – afinal – de uma única coisa: a essência da (minha) vida é amar. Amar a minha falta mesmo de amor, a água implícita, o beijo tácito e a sede infinita.

Mas principalmente, a ela.

 


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s