Resenha: O evangelho segundo Jesus Cristo (José Saramago)


Publicado pela primeira vez em 1991, o livro narra a vida de Jesus e mostra novas faces de Deus e do Diabo diante da reinterpretação da Bíblia por um ateu

Quod scripsi, scripsi. Foi o que disse Pôncio Pilatos a um sacerdote que questionou a inscrição INRI (Jesus Nazareno, Rei dos Judeus) sobre aquela cruz. Entretanto, muita gente duvidaria daquilo que foi escrito. Um grande expoente desse grupo foi, sem dúvida, José Saramago.

Ateu, o português escreveu “O evangelho segundo Jesus Cristo”. O livro foi publicado pela primeira vez em 1991 e reinterpreta textos da Bíblia, acompanhando a vida de Jesus e  fazendo com que a fé dos leitores seja posta em prova e, aos descrentes, garantindo um belo entretenimento.

O autor, que morreu aos 87 anos em 2010, usa vazios deixados por João, Marcos, Mateus e Lucas (os quatro evangelistas “oficiais”) para criar histórias possíveis para o personagem central – filho de Deus – e aqueles que o cercam, desde o Diabo até os amigos e a família.

A história de vida, morte e ressurreição de Jesus é o como o hino do Corinthians: mesmo quem não gosta sabe tudo e em detalhes. Só que, tão acostumados à divindade do Filho, esquecemos que ele era a forma humana de Deus. Por isso, é nesse caminho que seguimos, ao lado do autor.

Comecemos pela gravidez de Maria, que é anunciada por um anjo bem peculiar, que aparece vestido de mendigo a pedir comida na casa da família e deixa uma tigela em agradecimento. Esse objeto estará presente até a última página da história. Quem ler, verá. Sem mais detalhes.

Pois bem. A gestação calhou com um período de recenseamento e, como a família de José era de Belém e não vivia lá, precisava voltar à terra natal para o cadastro que seria realizado pelos romanos. Só que Maria entra em trabalho de parto e, sem chegar ao destino, se abriga numa cova com uma manjedoura.

Cercada de palha, a tal manjedoura será o abrigo de Jesus, que, nascido, é visitado por pastores. Em vez de ouro, incenso ou mirra – como diz a história oficial que conhecemos –, um pastor presenteia o bebê com um pão feito no fogo do centro da terra. Outro Pastor aparecerá na história para ensinar algumas coisinhas ao Deus menino.

“O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por este mesmo e único motivo”, prevê o autor.

Como não há segredos em lugar nenhum, alguém descobriu que um poderoso bebê tinha nascido para exalar muito poder. O rei Herodes, nas últimas, foi avisado e decidiu mandar matar todos os pequenos da região. Seria fácil, porque o recenseamento permitiu a identificação de todos eles.

Exceto um: Jesus, cujo pai encontrou soldados e ouviu os planos maléficos de Herodes e saiu correndo para proteger e esconder o filho, que, afinal, não foi encontrado. Só que José se esqueceu de avisar as famílias dos outros pequenos, que acabaram assassinados. A culpa cairia sobre ele em um pesadelo que atormentaria a família para sempre.

Um dos vazios bíblicos importantes preenchidos por Saramago é justamente o destino de José, esposo de Maria. As escrituras pouco falam sobre o carpinteiro. Na literatura portuguesa, ele acaba morrendo na cruz como um rebelde, aos 33 anos (mesma idade de Jesus ao ser assassinado).

“O rapazinho chamado Jesus está ajoelhado ao lado do cadáver, chorando, quer tocar-lhe, mas não se atreve, porém chega o momento em que a dor é mais forte que o temor da morte, então abraça-se ao corpo inerte.” Inegavelmente, é a cena mais triste de todo o livro.

Outros dois tabus abordados são a virgindade mariana e, especialmente, a relação de Jesus com Maria de Magdala (ou Madalena). Algum tempo depois de abandonar a casa da família, ainda adolescente, é com a prostituta que ele passa a morar. E a conviver em todos os sentidos.

“A história de Deus não é toda divina.” A criação portuguesa mostra um Jesus rebelde que ofende o próprio pai (seja ele Deus ou José) e acaba até se identificando com aquele certo Pastor citado antes, que o presenteia com outra tigela. Revolta-se com os planos divinos e tenta burlá-los como pode.

Com isso tudo, Saramago critica a religião e suas políticas, ironiza as atitudes de Deus, chega até a louvar atos diabólicos e valoriza as humanidades de Jesus. Afinal, este tentava salvar o mundo – de fato –, mas seu inimigo em potencial era outro. Evidentemente, não podemos dizer muito sobre isso aqui.

São enfáticas também as referências à cultura machista das religiões. Na época dos personagens, era perda de tempo conversar com a mulher mais que o “necessário” e uma mãe não podia fazer demasiadas perguntas ao filho. Com Madalena, isso começa a se inverter.

O que mais impressiona é que, ao analisar trechos da Bíblia, o leitor pode concluir que a literatura apresenta coerência tão grande que pode ser uma realidade provável. Assim, não querendo ser herege, Jesus é mais humano nas mãos de um ateu que de um cristão.

E Saramago não vê problema algum nisso. Nem com as inversões de valores que acontecem no capítulo em que Jesus vai ao mar para se encontrar com Deus. Quando ambos estão no barco, o Diabo chega a nado. E é retratado como uma espécie de gêmeo do todo-poderoso.

Os quarenta dias que Jesus passou no deserto (a chamada quaresma) são representados no livro como esse período no barco, o mais importante (em debate religioso). É uma obra-prima dentro de uma obra-prima e é aqui que acontece o questionamento da fé do leitor. Seja ele crente ou descrente.

Nessa construção, o primeiro e único homem de língua portuguesa a receber o prêmio Nobel de Literatura mostra um ser mais controverso do que todos: o próprio Deus. Esse Deus tem duas personalidades na Bíblia: bravo a.C. e bonzinho d.C. Mas Saramago nos indica que não é tão bem simples assim.

E justamente por não ser bem assim é que o desfecho desse livro se torna tocante e surpreendente, mesmo que todo mundo saiba que o fim é a morte de Jesus na cruz – modo como a história também começa, só que agora mais compreensível dado o percurso detalhadamente narrado.

A narrativa é conduzida em primeira pessoa por alguém que acompanha passo a passo a vida de Jesus, mas que também sabe e avalia o que acontecia antes e o que acontece agora. Uma espécie de deus lírico, digamos. Com pequenas mudanças em relação ao que a Bíblia apresenta. Grandes lições catequéticas.

Apesar do que parece para um leitor de primeira viagem, não é uma leitura difícil. Muito pelo contrário. O estilo do autor é admirável e agradável. Ele não aplica travessões e usa frases de dezenas de linhas e parágrafos de diversas páginas para nos deixar sem fôlego. E consegue.

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