Memórias de uma batalha: Histórias escondidas sob um tumor


Histórias escondidas sob um tumor

Trinta horas podem não ser tanto tempo assim. Talvez seja o tempo que você, leitor, leve para ler este livro¹ de cabo a rabo. O que é esse total perto de todas as 351 mil horas vividas em mais de 40 anos? Por mais que seja nosso dono e senhor, o tempo é insignificante dentro de sua própria grandeza. Mas não é assim para qualquer um.

Deise Baldoino Silva, uma telefonista afastada do trabalho, tem nessas 30 horas uma distância entre a vida e a morte, dentro do espaço entre Anápolis, em Goiás, e a cidade de São Paulo. Em 2014, em meio à fragilidade de seu corpo, ela enfrenta uma viagem de 15 horas em ônibus turístico, pois não tem dinheiro para pagar passagem de avião.

Seu destino é um hospital público para tratar o câncer que tomou sua mama e, de tão maldito, fez com que seus cabelos desaparecessem no 17º dia após a primeira sessão de quimioterapia. Deise também não tem dinheiro para pagar um tratamento em sua cidade e foi excluída dos casos atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), como se o tumor que a atingia fosse menos importante que os demais.

No final de 2012, durante uma consulta de rotina na cidade onde mora, o resultado de uma mamografia apontou microcalcificações no tecido mamário de Deise. O médico, negligente, não pediu uma investigação dos nódulos que resultaram em um tumor de um centímetro, pouco mais de seis meses depois, em junho de 2013. Em um hospital público, oncologistas decretaram a retirada total do seio, mas a operação não seria feita de graça. O preço era R$ 15 mil ou a morte.

Nascida em Osasco, cidade da região metropolitana de São Paulo, ela veio até a casa de parentes para tentar um tratamento na Capital. Uma semana após ser encaminhada para um tratamento gratuito, conseguiu a vaga. Deise passou por 12 químios e enfrenta agora 21 sessões de radioterapia.

A frequência das sessões diminuiu, mas, até agora, a vida de Deise ficou no trânsito por 195 horas, ou seja, mais de oito dias. Tudo isso em meio a náuseas, dores no corpo e até mesmo diarreia, durante regressos conturbados, momentos após os exames médicos. “Eu saía do médico e ia direto para o Brás, no centro, para pegar o ônibus e voltar pra casa.” Em uma das viagens, criminosos invadiram e atearam fogo em sua casa. “Não reclamo e não questiono. Deus sabe o que faz.”

 

A história e a situação podem parecer assustadoras. Contudo, são respostas a um horror muito maior – o de morrer. As 30 horas de viagem de Deise são um pequeno detalhe da batalha, como outras situações inacreditáveis que podem acontecer na história de cada uma das 576.580 pessoas que devem apresentar um novo diagnóstico de câncer no Brasil em 2014². Isso representa a duas vezes a população de Palmas, a capital do Tocantins. Ou ainda, quatro Garanhuns, município do agreste pernambucano onde nasceu o ex-presidente da República Luís Inácio Lula da Silva.

Os dados estimados da incidência para o ano foram divulgados pelo Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca). O órgão auxiliar do Ministério da Saúde leva o nome do ex-vice-presidente do país nos mandatos de Lula (2003-2010). José Alencar morreu três meses após deixar o cargo, vítima de câncer – doença com a qual travava um duelo desde 1997, ou seja, durante praticamente uma década e meia.

A cada dois anos o Governo Federal estima um número cada vez maior de casos de câncer, em uma proporção que acontece acima da variação estimada da população, definida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Muitos casos podem não se concretizar, mas como os dados de casos consolidados não possuem um sistema para a compilação de informações, os números mais atualizados são de 2005 e não abrangem todo o país. Dessa maneira, não é possível comparar com total certeza a quantidade de casos.

Olhando para os mais de 576 mil diagnósticos esperados para 2014, contudo, que levaria a uma população acima da 35ª cidade mais habitada do país (Cuiabá, no Mato Grosso), é impossível não notar que, quatro anos antes, em 2010, a estimativa estava em 489 mil casos de câncer.

Muitas pessoas que vivem nessa imensa população ainda preferem se calar diante do medo da chamada “doença maldita”, que no século 21 ainda é tratada como certo tabu, especialmente pelos homens – e principalmente se o câncer em questão é o de próstata. As mulheres, com seu sexo frágil, até nisso são mais fortes que nós, os machos. Apenas um exemplo disso foi a reação de Deise, ao saber, por um médico paulista, que devido à falta de tratamento em Anápolis a mama precisaria ser retirada. “Doutor, não tem problema”, falou.

Em abril de 2014, Deise tirou o seio e, na mesma cirurgia, reconstruiu a mama, com retalhos de pele da barriga. Entrou no centro cirúrgico às 7 da manhã e saiu 12 horas depois. “A pessoa precisa ter muita vontade de viver para enfrentar um câncer. Nesse tempo todo, eu nunca me senti doente, porque sei que Deus sempre tem um propósito para a nossa vida. Quando saí da cirurgia, a primeira coisa que perguntei para o meu médico foi quando eu poderia ouvir, de fato, que estava totalmente curada. Ele me disse que, talvez, daqui a dez anos.”

Neste livro, outras quatro histórias de vida serão contadas para que seja possível fazer uma reflexão, não apenas sobre a doença retratada, mas sobre o estilo de vida imposto pela doença³. O enfrentamento de um câncer, assim como o de qualquer doença grave, é uma terra fértil para ensinamentos sobre a vida. E é exatamente essa vida – complicada por tumores, dolorida por tratamentos e à sombra da morte – a essência deste projeto.

Todas as vidas aqui descritas são repletas de perguntas, cujas respostas não serão por mim, nem por ninguém, respondidas, para que a magia de cada trajetória não seja deixada de lado. Algumas questões não exigem – e outras não merecem – revides. A importância do viver está na dúvida. Mas o que movimenta este trabalho são os questionamentos que ajudem pelo menos uma pessoa no mundo a não desistir de tudo, assim como um dia eu – ou mesmo você, quem sabe – não se entregar em meio às dificuldades mais adversas.

A partir da vontade de reconstruir aqui as histórias de algumas pessoas que já foram diagnosticadas com câncer, é necessário antes entender o que é a doença e como ela se desenvolve basicamente. O processo de formação de tumores é o único fator semelhante em todos os doentes.


Notas

¹O texto compõe a introdução do livro-reportagem “Memórias de uma batalha: histórias de quem enfrentou o câncer” (Rafael Iglesias, 2014).

²Para 2018, são esperados 635 mil novos diagnósticos de câncer.

³A íntegra do livro será publicada, em partes, no Reticência Jornalística.


Confira a série completa.

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