Memórias de uma batalha: O belisco do caranguejo


O belisco do caranguejo

Talvez tudo fosse diferente se Zeus não tivesse traído Hera, no paraíso grego. O deus maior aproveitou que o marido de Alcmena estava em guerra, para pular a cerca, escondido de sua esposa, a rainha dos deuses. Zeus deixou de lado o seu corpo divino para tomar a aparência de um homem. A noite de amor acabou gerando Hércules, o filho da traição, metade humano, metade divino.

O segredo foi mantido, mas Hera descobriu toda a trama e prometeu matar o menino bastardo. Anos se passaram e, quando o forte semideus Hércules já estava maior, Hera pediu a um caranguejo (Karkinos, em grego) que matasse o filho de Zeus com um ferimento traiçoeiro no pé. O animal aceitou o pedido de sua deusa como uma ordem, mas, assim que tentou dar o golpe no rapaz, o caranguejo foi esmagado sob os pés do semideus. Em homenagem ao guerreiro morto, a rainha o transformou em uma estrela. E foi assim que surgiu a constelação Karkinos que deu origem ao termo “câncer”.

Deve ter sido olhando para as estrelas e para um de seus pacientes que, entre 460 e 377 antes de Cristo, quando viveu, Hipócrates, o pai da Medicina, percebeu que alguns tumores evoluíam no corpo de seus pacientes como se fossem uma pata de caranguejo. Basta imaginar o formato do animal e perceber que a parte maior (central) é o corpo (tumor principal), seguida por um braço que se bifurca em uma garra (área afetada pela doença). O grego, então, foi o primeiro a perceber que Hércules havia sido o primeiro homem a vencer um câncer.

Os tumores surgem a partir de células que sofreram mutações. Enquanto uma célula comum morre quando há um defeito em seu DNA, as células que causam o câncer permanecem ativas e passam a se reproduzir sem controle, de maneira aglomerada. Depois de aglomeradas em alguma parte do corpo, essas células podem escapar e chegar a outros órgãos, formando outro tumor (que os médicos chamam de metástase).

No geral, para a definição de exames e tratamentos, se considera apenas o ponto inicial em que a doença surgiu. Por exemplo, se um câncer começou na mama e, posteriormente, são encontrados focos de expansão para o útero, isso não quer dizer que a pessoa tem um tumor mamário e outro uterino, mas um câncer de mama que atingiu o útero. Essa informação é essencial não só para a medicina, mas também para a análise de estatísticas e compreensão das histórias que estão mais adiante neste livro¹.

O tratamento dos tumores é feito por meio de cirurgia, quimioterapia (aplicação de drogas médicas para conter e reduzir as células de câncer), além do uso de radiação. Lesões durante a radioterapia podem ser fatais ou gerar graves sequelas. Esses são os meios mais comuns de combater a doença. Há ainda outros métodos em pesquisa que permitirão o avanço da oncologia, a ciência médica que estuda o câncer. Levando em conta que cada caso é um caso único na medicina, as situações devem ser analisadas individualmente, sem que haja generalização. Isso pode ser prejudicial para os pacientes.


Notas

¹O texto compõe a introdução do livro-reportagem “Memórias de uma batalha: histórias de quem enfrentou o câncer” (Rafael Iglesias, 2014).


Confira a série completa.


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