Resenha: As últimas testemunhas (Svetlana Aleksiévitch)


Escritora que venceu Nobel reúne depoimentos de crianças que viveram o sofrimento da Segunda Guerra na Bielorrúsia em livro lançado em julho no Brasil

Barulho da rua no meio da noite. Um pai desce à porta. E grita na escuridão. O sangue escorre, forma uma poça em que o filho escorrega e cai. Havia um cheiro estranho: o intestino havia sido perfurado por uma bala alemã. Essa é uma das histórias retratadas por Svetlana Aleksiévitch em “As últimas testemunhas”, publicado pela primeira vez em 2004.

A obra, que demorou 28 anos para ser concluída, reúne lembranças de crianças e adolescentes que viveram a Segunda Guerra (1939-1945). Eles viveram na época e ainda hoje convivem com a dor. “Havia uma mulher de pé, segurava uma criança de peito nos braços que tomava água numa mamadeira. Eles atiraram primeiro na mamadeira, depois na criança… E depois mataram a mãe…”, reviveu Faína Liutskó – 15 anos na época.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, cerca de três milhões de crianças morreram. Na Bielorrúsia, país que foi invadido pelos alemães em 1941, 27 mil passaram a viver em orfanatos. Quarenta anos após o final das batalhas, a autora que ganhou o Nobel de Literatura há três anos foi ouvir as vozes dos mais injustiçados, trazendo um olhar inédito ao tema.

A jornalista Svetlana, em seus livros, tem essa característica. Ela ouve, pergunta e escreve, sendo fiel às marcas da oralidade de seus entrevistados. Tanto que uma de suas publicações (Vozes de Tchernóbil) leva como subtítulo “A história oral do desastre nuclear”. Ou seja, o que as pessoas podem até falar, mas jamais resolveram registrar em papel.

“Flaubert se denominava uma caneta humana; eu diria que eu sou uma orelha humana. Quando caminho pela rua e ouço palavras, frases e exclamações, sempre penso: quantos romances desaparecem sem deixar rastros”, disse a escritora ao receber o Nobel. Publicado em 2018 no Brasil, “As últimas testemunhas” é a modelagem enxuta do sofrimento humano.

O perfil dos entrevistados, infelizmente (para a humanidade), não é muito diferente: quase todos presenciaram assassinatos, diversos passaram fome com o racionamento, a maioria perdeu a casa e guardou o cheiro, a cor da guerra (consegue imaginar?) e até a beleza de bonecas, presente que duas irmãs deram a conhecidos em todos os aniversários após 1945.

O jornalismo literário de Svetlana, autora que nasceu três anos após o fim do conflito em área hoje ucraniana, ao contrário do que se possa imaginar, não relata especialmente detalhes de batalhas de bombas e tiros. Ela olha para a falta que o colo de mãe fazia para uma criança ou para a esperança eterna da família de alguém que “desapareceu sem deixar rastros”.

Com pouco mais de 300 páginas, o livro é dividido em capítulos que levam no título o trecho de alguma fala dos personagens (“por que atiraram no rosto? minha mãe era tão bonita…”), seguido do nome do entrevistado, sua idade na época da história narrada e sua profissão atual (Volódia Kórchuk, sete anos. Hoje: professor universitário, doutor em história).

“Não havia ponte ali, levavam as pessoas para o gueto em barcos. Os alemães haviam cercado a margem. Diante dos nossos olhos estavam carregando os barcos com velhos e crianças, puxavam com uma lancha até metade do rio e viravam o barco. Ficamos procurando, nossos velhinhos não estavam ali. Vimos uma família subir no barco: marido, esposa e dois filhos; quando viraram o barco, os adultos foram imediatamente para o fundo, e as crianças boiavam. Os fascistas, rindo, batiam nelas com os remos. Batiam nelas num lugar, elas apareciam em outro, os soldados as alcançavam e batiam de novo. Mas elas não afundavam, como bolinhas…” (Vália Iurkiévich, sete anos)

Svetlana Aleksiévitch tem quatro livros publicados no Brasil: A guerra não tem rosto de mulher; Vozes de Tchernóbil; O fim do homem soviético; e As últimas testemunhas. Todos foram editados pela Companhia das Letras. O último, em parceria TAG Livros, foi lançado em julho de 2018 no país, e é um excelente meio de aprender o que a história oficial ignora – o sentimento e a vida, algo que importa muito que política.

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