Resenha: O pior dos crimes, de Rogério Pagnan


Livro-reportagem revela detalhes e falhas de investigação sobre a morte de Isabella Nardoni, ocorrida há 10 anos

A queda de Isabella Nardoni do sexto andar do Edifício London, na zona norte de São Paulo, completou 10 anos em 29 de março. Se você estava vivo à época, deve se lembrar da comoção causada do dia seguinte até o julgamento do pai e da madrasta da criança, que morreu aos cinco anos. Uma história por trás dessa que conhecemos é desvendada pelo jornalista Rogério Pagnan no livro-reportagem O pior dos crimes, lançado pela editora Record no primeiro semestre.

“Quando a ambulância chegou ao hospital, Carol [Ana Carolina Oliveira, mãe biológica de Isabella] precisou ser contida para não invadir a sala de emergência junto com a equipe médica. Não queria estar longe da filha naquele momento, mas não lhe restou opção a não ser sentar no chão da sala de espera e rezar, à espera de um milagre.
Que não veio.”

Dedicado aos detalhes, o autor recolhe as informações mais sutis para compor um panorama completo da história das famílias envolvidas. Considerando, aliás, os nomes de todos os personagens, o caso Nardoni parece mais algo como Cem anos de solidão. Enquanto Gabriel García Márquez tinha Josés Arcadios e Aurelianos, Pagnan contou com Anas, Alexandres, Antônios e Carolinas – e utilizou muito bem essas coincidências na narrativa.

Descobrimos que Alexandre (então adolescente) namorava uma garota que engravidou. Um exame de DNA mostrou que o filho não era dele. Meses depois, começava a sair com Ana Carolina Oliveira, de 15 anos, que dois anos depois recebeu Isabella em seu útero. “Ela quis abortar.” Oliveira era ciumenta, mas seu ciúme acabou se justificando quando ela descobriu que o namorado a estava traindo com uma colega de faculdade. Era Anna Carolina Jatobá.

Mas o grande mérito da obra é abordar consistentemente as falhas na investigação, desde o pedido de prisão precoce do pai e da madrasta – causado, ao que tudo indica, por um jogo de egos de delegados da Polícia Civil (que ainda estão na ativa) – até as mentiras contadas em juízo por uma perita. Essa mulher, por exemplo, se dizia doutora com doutorado – só que uma pesquisa do repórter concluiu que ela nunca havia passado sequer pelo mestrado.

 “– Lembra qual foi a sua orientadora?
– Foi orientador… – disse ela, que, após outra pequena pausa, desistiu de tentar resgatar na memória. Não se lembrava nem mesmo do primeiro nome, ou apelido, do seu orientador do mestrado.
– O nome do trabalho?
– Faz tanto tempo. Eu preciso pegar direitinho, se não vou te dar os dados errados. Se você me deixar o contato, eu te passo. Um e-mail. Porque agora… tão longe – respondeu.
(…) Os contatos foram deixados, mas as informações nunca chegaram.”

Outra revelação importante é que os policiais modificaram a cena do crime em materiais ilustrativos, para que nenhuma conclusão investigativa fosse questionada. Além disso, foram inventadas provas: materiais biológicos não foram examinados e, os que foram, não indicaram crime. Uma das fontes a revelar isso é a perita Norma Sueli Bonaccorso, que foi superintendente da Polícia Técnico-Científica do Estado de São Paulo.

O pior dos crimes também indica novos suspeitos que a polícia ignorou, bem como possibilidades que não foram apuradas corretamente, como o depoimento de um pedreiro sobre uma possível invasão ao condomínio. Essa revelação foi feita, na época, em reportagem do próprio autor, publicada na Folha de S. Paulo. O texto fez Pagnan ser convocado como testemunha de defesa dos Nardoni no julgamento, em que ele quebrou maquete da promotoria.

O livro já foi chamado de Making a Murderer brasileiro, em comparação com série documental da Netflix que conta a história de um homem preso durante 18 anos por um crime que não cometeu. Não é justa a avaliação. Ao relatar a história de Isabella, o autor não busca defender o casal. Pelo contrário, ele indica caminhos de falha policial que podem ou poderiam ter resultado em total impunidade. É preciso que a justiça revisite essa história.

Há 18 anos na Folha, Rogério Pagnan (a quem tenho o prazer de conhecer desde 2013) é especialista na cobertura de segurança e foi premiado com o Grande Prêmio Folha (2012) e o Prêmio Latino-Americano de Jornalismo de Investigação (2017). Como escritor, utiliza períodos curtos para criar um ambiente de suspense e sintetiza informações, agregando mais conteúdo – e mesmo emoção – em menos espaço, uma qualidade de poucos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s