Lista: 5 livros que misturam jornalismo e literatura


Reticência Jornalística indica ao longo da semana cinco obras nacionais para quem curte a mistura de jornalismo e literatura

O universo do jornalismo não está apenas em relatar aquilo que acaba de acontecer, mas também em contar boas histórias a partir de percepções e grandes e cuidadosas pesquisas. O jornalismo literário e a crônica são algumas formas de colocar isso no papel.

A dedicação ao trabalho narrativo e a liberdade de espaço e estilo dos livros permite um caminho geralmente bloqueado pelos veículos de comunicação de massa. É por isso que não é raro ver profissionais da mídia diária investirem nesse ramo perene.

Em geral, os jornalistas literários têm apenas duas mãos e o sentimento do mundo e chegam a fingir que é dor a dor que deveras sentem. Por isso, essa proposta permite ao leitor olhar para a rua (e para o outro) ao mesmo tempo em que o leitor olha para si.

O Reticência Jornalística selecionou cinco obras jornalísticas brasileiras que todo estudante de comunicação deveria ler para se inspirar na busca de histórias e de notícias. A sugestão serve para os interessados para aquilo que é humano e informativo ao mesmo tempo.

De segunda (22) até sexta-feira (26), um livro será indicado por dia nesta página.

1. A vida que ninguém vê (Eliane Brum)

Lançado em 2006 pela Arquipélago Editorial, talvez seja o maior clichê desta lista. Em 205 páginas, a autora reúne crônicas (que também são reportagens) publicadas no jornal Zero Hora (RS) na década de 1990. Todos os textos revelam pessoas comuns.

De todos, o meu preferido é Sinal fechado para Camila. Eliane Brum mostra uma menina que fez versinhos para pedir esmolas em semáforos de Porto Alegre. Flagrada na rua, foi para Febem. Fugiu e num dia de calor foi se refrescar no lago Guaíba. Não sabia nadar.

Camila morreu. Você, e eu também, somos cúmplices de sua morte. Nós todos a assassinamos. A questão é saber quantas Camilas precisarão morrer antes de baixarmos o vidro de nossa inconsciência.

Eliane Brum tem o dom de emocionar. E é disso que precisamos. De longe, minha autora preferida no jornalismo, ela também assina o livro A menina quebrada (2014, Arquipélago), cuja crônica-título também nos torna pessoas quebradas.

2. Abusado: O dono do Morro Santa Marta (Caco Barcellos)

O autor é um rosto conhecido do público. Atualmente, apresenta o Profissão Repórter na TV Globo. Porém, também publicou duas importantes obras jornalísticas. Além de Abusado, é autor de Rota 66, que joga luz às sombras que rondam a Polícia Militar de São Paulo.

No livro que destacamos, publicado em 2003 pela editora Record, lemos como a facção criminosa Comando Vermelho entrou na favela Santa Marta, no Rio de Janeiro. O protagonista é Juliano VP (versão literária do original Marcinho VP), que foi entrevistado.

Os traficantes do morro, entre outras façanhas, cuidaram da segurança de Michael Jackson quando ele filmou por lá o clipe They don’t care about us. Paralelamente, o jornalista conta a história de Santa Marta e sua evolução, que muito se deveu aos criminosos.

A rede (de distribuição de água potável) era de autoria dos pais e avós dos jovens da terceira geração de traficantes. Mas também era considerada patrimônio dos criminosos de várias especialidades, herdeiros da bandidagem dos anos 60. Contam na favela que assaltantes, ladrões e desocupados trabalharam duro, como nunca haviam visto, nos mutirões que criaram o sistema pioneiro.

Esse trabalho jornalístico nos conduz por uma linha tênue: enquanto repelimos os crimes cometidos, passamos a ter simpatia (e até identificação) pelo personagem. Esse personagem, aliás, foi morto no presídio onde cumpria pena após o lançamento do livro.

3. Memórias de uma guerra suja (Cláudio Guerra, Marcelo Netto e Rogério Medeiros)

Este é um livro depoimental. Cláudio Guerra, ex-delegado e matador do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), conta 15 anos de sua história na ditadura militar aos jornalistas. Guerra se tornou pastor evangélico e essa mudança o motivou à obra.

Publicado pela primeira vez em 2012, pela Top Books, o ex-delegado revela sua atuação ao lado do famoso assassino e torturador da Polícia Civil paulista Sérgio Paranhos Fleury. Detalha ações terroristas da força policial e o envolvimento da inteligência norte-americana nos atos.

Isso [ter matado] me atormentou durante muito tempo porque eu sei que as famílias devem ainda ter até hoje aquela esperança de saber o destino de seus entes queridos. Se eu tive coragem de fazer, eu tenho que ter coragem de assumir os meus erros.

A história chegou ao conhecimento dos profissionais de maneira diferente. Em 2009, advogada de Guerra, que se orgulha de nunca ter torturado ninguém (preferia matar de uma vez), chamou Medeiros a um hospital onde o personagem, internado, ofereceu sua história.

Existia um sentimento de impunidade entre nós, porque fizemos a coisa ostensivamente, sem preocupações com eventuais testemunhas.

A descrição guerra suja ocorrida entre as décadas de 1970 e 1980, que inclui informações sobre a questionável morte de Fleury, sofre – entretanto – com as falhas de memória de Cláudio Guerra. Mas o conjunto do livro é uma importante ajuda para o retrato do período militar.

4. Holocausto brasileiro (Daniela Arbex)

Publicado em 2013 pela Geração Editorial, o livro tem como subtítulo Vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil. Na obra, a autora vai a Barbacena (Minas Gerais) para contar a história desse lugar macabro, que ficou conhecido como Colônia.

Com imagens chocantes de fotógrafos da mítica revista Cruzeiro, Daniela reúne depoimentos de vítimas do genocídio cometido pelo Estado brasileiro, bem como de pessoas que trabalharam no lugar. E indica a conivência de médicos com a “tortura” cometida no hospício.

Uma das funcionárias da cozinha e outras vinte mulheres foram sorteadas para realizar uma sessão de choque nos pacientes masculinos do pavilhão escolhidos aleatoriamente. Uma colega cortou um pedaço do cobertor, encheu a boca do paciente, que a esta hora já estava amarrado na cama, molhou a testa dele e começou o procedimento. Contou mentalmente um, dois, três e aproximou os eletrodos das têmporas de sua cobaia sem nenhum tipo de anestesia. Ligou a engenhoca na voltagem 110 e após nova contagem, 120 de carga. O coração da jovem vítima não resistiu. O paciente morreu ali mesmo de parada cardíaca, na frente de todos. (…) “Menos um”, pensou o guarda a fazer o serviço de retirar o corpo.

O trabalho jornalístico revela que pelo menos 60 mil pessoas morreram na Colônia. E que 70% delas não tinham qualquer diagnóstico de doença mental. “Eram homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder.”

Além disso, o hospício abrigava epilépticos, alcoólatras e até mesmo meninas que foram violentadas e engravidaram. A autora mostra que alguns eram internados simplesmente por serem tímidos. Holocausto brasileiro é um retrato de que a humanidade pode estar enterrada.

5. A poeira dos outros (Ivan Marsiglia)

O livro lançado em 2013 pela Arquipélago Editorial reúne 20 histórias contadas em reportagem pelo jornalista, ao longo de sua carreira. Marsiglia passou pelo Estadão, Playboy e Carta Capital e também foi assessor especial da presidência da República no governo Lula.

Entre os personagens abordados, está o lendário ET Bilú, de Corguinho (Mato Grosso do Sul). O escritor acompanhou um grupo de estudiosos de objetos voadores não identificados (OVNIs) e soube que um deles havia feito contato com o tal alienígena, que ganhou fama na TV.

Dois grandes destaques da coletânea são João Gilberto está resfriado, versão brasileira de texto de Gay Talese sobre Frank Sinatra (um dos maiores clássicos do jornalismo literário em que Talese escreveu cobre o cantor sem conseguir entrevistá-lo), e Com a palavra, a faixa.

Neste texto, Ivan Marsiglia personifica a cobiçada faixa que em tese deve ser entregue do atual presidente para seu sucessor. Com isso, e requintes de ironia e sarcasmo (que são uma tendência na obra toda), ele conta uma história iniciada em 1910. “Quer saber? Vou falar.”

Sem ser pretensiosa: todo o mundo me deseja. Só que não fui feita para ser de ninguém. Nesse ponto, do alto de meu centenário, até que sou moderninha. Gosto de variar, mudar de dono, exercitar o desapego. Romances não me faltaram. Getúlio praticamente me tomou à força duas vezes, em 1930 e 1937. Depois voltou, se desculpou e acabou me conquistando.

Em Carnaval na praia dos pelados, publicado em 1995, o jornalista se aventura em uma praia de nudismo em Santa Catarina e conta suas impressões, descobrindo que, lá, “o problema não é olhar, é como olhar”. O livro é um bom passatempo para quem curte o tom de crônica.

“Aqui é o paraíso dos salva-vidas”, entrega Leandro Medeiros Tinoco, o mais jovem dos três integrantes do Corpo de Bombeiros de Santa Catarina que se revezam no Pinho [nome da praia]. O privilégio de trabalhar entre as nudistas é disputado entre os solteiros da corporação. Os casados, pesarosos, abrem mão da disputa para evitar problemas em casa.


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