Análise: Jornais deixam pé atrás em relação a Bolsonaro após eleição


Com novo presidente, Estadão fala em salto no escuro; Folha diz que será contrária a principais propostas; já O Globo afirma não fazer diferença se haverá civis ou militares no governo

Horas após a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) com 55% dos votos, derrotando Fernando Haddad (PT), os principais jornais do país agem com cautela e mantêm um pé atrás em relação àquele que assumirá a presidência do Brasil a partir de janeiro.

Com 99,99% das urnas apuradas às 9 horas desta segunda-feira (29), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contabiliza 57,8 milhões de votos ao vencedor. Haddad, com 45%, teve 47 milhões. Brancos, nulos e abstenções chegam a 42,5 milhões de pessoas.

O Estado de S. Paulo, por exemplo, deu hoje o título Salto no escuro a um editorial sobre o pleito. Segundo o jornal, o resultado é o clímax da tiriricarização da política – a escolha de um candidato folclórico para constranger campanhas.

Atribuindo a alta quantidade de votos ao conhecido antipetismo e antilulismo, o Estão admite que muitos dos próprios eleitores de Bolsonaro o “consideram completamente despreparado para chefiar o governo e o Estado”. O que, por si só, é preocupante.

O eleitor escolheu Bolsonaro sem ter a mais remota ideia do que ele fará quando estiver na cadeira presidencial. Não é um bom augúrio, justamente no momento em que o País mais precisa de clareza, competência e liderança.

A Folha de S. Paulo, que hoje tem Maria Cristina Frias à frente da diretoria editorial e de redação, pegou mais pesado com o agora presidente eleito. O jornal indica que ele já “demonstrou desconhecer o papel da imprensa livre nas sociedades modernas”.

Em dois editoriais sobre o tema, Constituição acima de todos e Bolsonaro e a esfinge, ressalta-se que em seus discursos de vitória, Bolsonaro diminuiu sua retórica agressiva, falou “genericamente” a todos os brasileiros e elogiou a Constituição, a democracia e as liberdades.

À constatação, a publicação ataca: deve-se reconhecer esse gestou, mas é impossível deixar de apontar que em sua carreira parlamentar (de 28 anos), Bolsonaro indicou que ignora “rudimentos da convivência democrática, a proteção das minorias e a transigência com diferentes pontos de vista”.

A Folha também fez questão de ressaltar o termo “legítimo” para se referir à eleição. Entretanto, sempre foi o próprio Jair Bolsonaro quem colocou em xeque o sistema de urnas eletrônicas que computou os votos que elegeram. Fez isso, inclusive, no primeiro turno.

Mais firme que o concorrente do bairro do Limão, o diário da família Fria afirma que está confiante na Constituição e na democracia, mas ressalta que o eleito terá que “assimilar as lições que nunca aprendeu e mostrar-se à altura do mandato recebido.”

A ampliação do porte de armas, o abrandamento dos controles sobre policiais que matam, a censura a professores em sala de aula, o endurecimento das regras para o aborto e o consumo de drogas e a flexibilização das leis ambientais continuarão a ser objeto de crítica nestas páginas.

No editorial A hora do rodízio democrático no poder, o jornal O Globo, um pouco mais otimista, atestou que o segundo turno “serviu para atestar a solidez do estado democrático de direito” e “consolidá-lo ainda mais”.

Sobre o temor em relação à volta dos militares ao poder, a publicação se mostra despreocupada. “Não importa se [Jair Bolsonaro] contará com militares ou civis”, afirma o texto. “Perante a Constituição, não faz diferença.”

“Enfrentar este cenário difícil não será apenas um desafio para governo e oposição, mas também para o próprio regime democrático, com seus pesos e contrapesos”, conclui o editorial, em que O Globo não indica se será favorável ou contrário às principais ideias do novo presidente.

Confira o primeiro discurso de Bolsonaro como presidente eleito:


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