Bolsonaro reflete o analfabetismo funcional brasileiro


Presidente eleito mostra ao país que não sabe interpretar textos ao falar, com preconceito, sobre questão do Enem

Jair Bolsonaro (PSL) reflete a alta taxa brasileira de analfabetismo funcional ao falar sobre questão do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) que tratou de dialeto LGBT. Segundo o Indicador do Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2018, o mal que parece atingir o presidente eleito chega ainda a 29% da população nacional.

Ironias à parte, porque sabemos bem que o analfabetismo funcional de Bolsonaro é tomado pelo mais puro e nojento preconceito (homofobia, com todas as letras) e pelo mais grosseiro e detestável fundamentalismo religioso, o futuro chefe do Executivo precisa parar de dar palpite nos assuntos de que não entende. Tudo bem que há o risco de ele jamais falar novamente.

O texto utilizado na questão em questão tratava, jornalisticamente, sobre o “pajubá” – tratado como o dialeto secreto da comunidade gay e dos travestis –, e queria saber por que o pajubá, da perspectiva do usuário, ganha status de dialeto, caracterizando-se como elemento de patrimônio linguístico. A consolidação por objetos formais de registro é a resposta.

Veja bem. A pergunta é: por que o pajubá ganha status de dialeto? Caso o texto fosse outro, poderia ser: por que não é todo mundo que coloca “trema” em todas as palavras com “qu” como faz o excelentíssimo presidente da república e por que isso não caracteriza um dialeto, ao menos até agora? É uma questão de língua portuguesa e suas variantes.

Entretanto, a estupidez do presidente eleito não permite perceber isso.

“Esta prova do Enem – vão falar que eu estou implicando, pelo amor de Deus –, este tema da linguagem particular daquelas pessoas, o que temos a ver com isso, meu Deus do céu? Quando a gente vai ver a tradução daquelas palavras, um absurdo, um absurdo”, disse Bolsonaro em uma transmissão feita pelo Facebook. Vergonha alheia define.

Em primeiro lugar, a linguagem particular de qualquer pessoa é de interesse total dos linguísticos não somente brasileiros, mas de qualquer lugar do mundo. A formação da cultura se dá especialmente pela linguagem. Depois, o próprio texto indica “relação entre o pajubá e a cultura africana, numa costura iniciada ainda na época do Brasil colonial”.

A simples representação de um grupo, por meio do estudo de suas “gírias”, é louvável em uma sociedade legalmente igualitária, o que está distante de acontecer no Brasil, cuja boa parte da população é essencialmente preconceituosa e refletiu isso democraticamente. Essa parte brasileira está deixando de ser hipócrita e declarando sua parte pobre.

E, evidentemente, isso se reflete no próximo presidente da República.

Bolsonaro é alguém que precisa aprender a ler e interpretar o que lê.

Temos quatros anos para observá-lo nesse sentido.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s