Em operação, Polícia Federal acusa Capitu de trair Bentinho


Oficialmente, agentes dizem ter batizado ação com o nome de Capitu pela “dissimulação” dela, que nunca foi acusada disso por Bentinho

A Polícia Federal resolveu se meter em uma discussão que se arrasta por décadas: a suposta traição de Bento por Capitolina. Em operação realizada na última sexta-feira (9), delegados parecem indicar formalmente que a moça de olhos de cigana oblíqua cometeu adultério, com a desculpa de que era dissimulada. Um grave erro de interpretação.

A “Operação Capitu” foi um desdobramento da Lava Jato e levou os executivos da J&F Joesley Batista e Ricardo Saud de volta à cadeia. A polícia indica que eles mentiram em delação para atrapalhar investigações. O ex-ministro da Agricultura Neri Geller também foi encarcerado, sob suspeita de ter recebido propinas. Todos já foram soltos pela Justiça.

Essa insinuação de que os “delatores premiados” teriam enganado a procuradoria e a Polícia Federal foi oficialmente relacionada ao nome Capitu porque a personagem que Machado de Assis nos apresentou em “Dom Casmurro” seria dissimulada – como Batista e Saud. Parece que o concurso que prestaram não exige atenção literária.

Na obra, o agregado José Dias usa a expressão para descrever o olhar de cigana de Capitu. Não é uma descrição dela, segundo o próprio Bentinho conclui. “Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim [os olhos de Capitu]”, narrou. “Se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas.” 

Em todas as linhas do livro, Bentinho diz apenas uma vez que Capitolina foi “dissimulada”. Depois de ter falado do “nosso juramento de que nos havemos de casar um com outro”, a menina disse a outros que “a mim quem me há de casar há de ser o padre Bentinho, eu espero que ele se ordene”. Dona Glória, a mãe, havia prometido o filho ao sacerdócio. Algo positivo.

Assim, tirado o desconhecimento parcial do enredo por parte dos policiais federais, sobra uma única opção plausível para a nomeação dos trabalhos investigativos: Capitu “traiu” Bentinho com Escobar, assim como Joesley Batista fez com a Procuradoria-Geral da República (PGR). Indireta e subjetivamente, um posicionamento histórico e ridículo.

Afinal, qualquer aluno que tenha compreendido o histórico do clássico publicado em 1899 poderá perceber que a Polícia Federal tenta manipular até mesmo a literatura a seu gosto. Mas, como me disse o querido professor e jornalista Alex Criado, podemos ficar tranquilos, porque eles “não têm provas, mas têm convicção da culpa dela (igual o Bentinho)”.

Defesa

Já que falamos no “erro” literário da operação, vale destacar que o advogado de Joesley indicou outra falha dos investigadores. “Houve uma indução a erro ao Poder Judiciário [pela Polícia Federal], que acabou, por cautela, decretando a prisão”, criticou André Callegari. Segundo ele, o delegado responsável pela “Capitu” requentou fatos já apresentados pelo cliente.

“Não se nega [o cometimento de crimes por Joesley Batista]. Esses fatos já foram narrados, o da entrega de valores [de propina] ao MDB, ao Eduardo Cunha“, exemplificou. “Mas o delegado pega os dados [da delação] dos colaboradores e usa contra os próprios colaboradores”, conclui o defensor, apontando que não foi esse o combinado. Paciência.


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