Resenha: Sobre a brevidade da vida (Sêneca)


“A vida se divide em três períodos: aquilo que foi, o que é e o que será; o que fazemos é breve, o que faremos, dúbio, o que fizemos, certo”

Sócrates disse que “a vida sem reflexão não merece ser vivida”. Já Oscar Wilde afirmava que viver é raro, “a maioria das pessoas apenas existe”. Na contramão, atribuem a Friedrich Nietzsche a máxima de que “a vida mais doce é não pensar em nada”. Contemporâneo de Jesus Cristo, Sêneca perguntou se não tínhamos vergonha de destinar a nós mesmos somente “resquícios de vida” e reservarmos “para a meditação apenas a idade que já não é produtiva”.

No livro “Sobre a brevidade da vida”, o escritor latino é firme ao sugerir que começamos a querer viver tarde demais, quando “já é tempo de desistir de fazê-lo”. Cartas escritas 2 mil anos atrás continuam atuais (talvez até mais do que gostaríamos) na contemporânea pós-modernidade líquida que Zygmunt Bauman pensava. Nada para a nossa geração é eterno, tudo é passageiro. Que se movimenta conforme a maré. E nós, ficamos à deriva.

A obra de Sêneca endereçada a um certo Paulino (cuja identidade é controversa) trata, pois, da finitude da vida humana. Abordando a educação, a amizade e especialmente a morte, ele apresenta a importância do ócio real. Vive-se como o primeiro imperador de Roma, Otávio Augusto, na espera de um tempo para si que virá num futuro que nunca chegará. Quando esperava pelo descanso, o romano viu-se novamente cercado por conflitos.

Esse adiamento do descanso, do tempo para reflexão, com ganância, inércia, vaidade, inveja, vícios, ambições e trabalhos supérfluos contribui para a literal perda de tempo. Todo esse ritmo de vida atrapalha a longevidade e acabamos nos tornando escravos de falsa liberdade. Segundo o pensador, não deveríamos ser econômicos na preservação de patrimônios, mas evitar o desperdício de nosso tempo, “a única coisa que justificaria a avareza”.

Para Sêneca, então, o principal problema para a qualidade de vida é ocupação, ou o excesso dela. O homem ocupado não pode fazer nada direito: nem estudar (porque está distraído) nem se aprofundar em nada (porque rejeita imposições). “Aquele que utiliza todo o tempo apenas consigo mesmo, que organiza todos os dias como se fosse o último, não deseja, nem teme o amanhã.” Logo, não existe vida curta, mas vida desperdiçada – com o tempo.

Na brevidade da existência, o tempo é utilizado como se fosse gratuito – até que a doença chegue e a sensação de morte traga um desespero por mais alguns dias. Por isso, é preciso cuidar com cuidado de cada minuto, porque nenhum será devolvido nem por milagre, nem pela vontade do povo. “O tempo presente é brevíssimo, ao ponto de, na verdade, não ser percebido por alguns”, alerta Sêneca, e deixa de existir antes de chegar.

Fernando Pessoa escreveu que “tudo vale a pena, se alma não é pequena”. É essa expansão da alma, da mente, por meio do ócio, que Sêneca indica para combater a brevidade da vida, tornando-a suficientemente longa. Afinal, a vida nos foi dada para “a realização de importantes tarefas” e não desperdiçada no luxo e na indiferença. É preciso concluir a nossa obra, ocupando-nos com nós mesmos para conquistarmos a plena e sólida liberdade.

O autor latino explica que, entretanto, somente aquele que tem consciência de seu lazer é realmente ocioso. “Não gozam de ócio aqueles cujos prazeres trazem muitas preocupações.” É o caso, por exemplo, de uma pessoa que tira férias com a família, mas passa a viagem preocupada com os filhos, os horários, os gastos e também com os deveres deixados para o retorno. Este, então, está refém da ocupação, e não pode ser dono de seu próprio tempo.

A vida é repleta de fragilidade – aquele que demonstra seu pleno domínio pode sequer saber quanto tempo perdeu dedicando às demais coisas e pessoas aquele dia que pode ser o seu último. Tentar controlar o tempo é o principal impedimento para viver, conforme Sêneca: planeja-se o amanhã e perde-se o presente. “Daquilo que depende do destino, abres mão; do que depende de ti, deixas fugir”, afirma o autor

Se o tempo é brevíssimo e imperceptível, somente os ociosos vivem, não somente porque administram bem sua vida, mas porque buscam conscientemente a sabedoria, de forma que aquilo que é finito torna-se eterno. “A vida se divide em três períodos: aquilo que foi, o que é e o que será. O que fazemos é breve, o que faremos, dúbio, o que fizemos, certo”, conclui Sêneca. É preciso deixar de olhar o relógio para controlar melhor o tempo.


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