Resenha: Da tranquilidade da alma (Sêneca)


“A natureza quer que eu faça duas coisas: agir e dedicar-me a reflexão”

Em Da tranquilidade da alma, Sêneca aponta formas não apenas de atingir o indicado no título, mas maneiras de retirar sua vida dos meios prejudiciais e sugestões sobre como alcançar a felicidade. Diferentemente da obra Sobre a brevidade da vida, o autor latino demora-se em temas que estão à margem do objetivo central, tornando a leitura mais lenta.

Sêneca – que como já sabemos, viveu há quase dois milênios – diz que é preciso retirar-se para perto de homens qualificados e escolher um exemplo para orientar nossa vida. Na visão do pensador, somente assim é possível alcançar sonhos: em um lugar onde não interfiram em nossas ações, de maneira que possamos conduzir nossa vida segundo um único princípio. Afinal, como refletiu Mario Sergio Cortella, quem tem várias prioridades não tem nenhuma.

Nesse sentido, avalia-se que o maior dos males é tentar mudar os próprios defeitos, porque isso permite abrir mão dos anseios. O objetivo da vida deve ser, desde a primeira idade, entregar-se inteiramente à contemplação da verdade, em busca de uma razão para viver. Mais velho, isso será útil para ensinar aos demais. Porque uma das exigências feita ao homem é a de que ele seja útil ao maior número de semelhantes possível.

Mas quem busca a tranquilidade da alma e a felicidade não pode esperar que ela caia do céu.

É preciso agir.

Vivo segundo a natureza, já que a ela me entreguei totalmente, já que sou seu admirador e servo. Entretanto, a natureza quer que eu faça duas coisas: agir e dedicar-me a reflexão. Tanto uma quanto outra realizo, pois não pode haver contemplação sem alguma forma de ação.

Contemplação é um termo comum nas páginas de suas obras.

Contra a tranquilidade da alma, pesam os vícios. Eles são as principais causas de aborrecimento e desequilíbrio interno, proporcionando não somente tédio, mas desgosto para consigo mesmo. Sua lista de contraindicações parece uma forma inicial dos pecados capitais (sugeridos pela Igreja Católica no século XI): luxúria, avareza, ira, soberba, vaidade, preguiça e até mesmo gula, tema tratado por ele em um dos capítulos.

Na contramão, aquele que consegue atingir a exigência de cuidar dos assuntos públicos, de dar conselhos aos semelhantes (especialmente os mais jovens) e promover a virtude da alma onde quer que o seu repouso seja acolhido. Sêneca indica, portanto, que a tranquilidade da alma só acontecerá com a obtenção da felicidade e da calma e, de certa forma, de algo posterior a ele, a que os católicos chamam se dons do Espírito Santo: fortaleza, sabedoria, entendimento, ciência, conselho, piedade e, até mesmo, temor de Deus.


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