Deus acima de tudo no Ministério da Ressurreição

O aparato governamental se divide em quatro ministérios: o Ministério da Verdade, que cuida de adulterar o passado em benefício do governo (inclui o Gabinete de Ódio); o Ministério da Paz, responsável pela guerra; o Ministério da Pujança/Fartura/Riqueza, aquele do Paulo Guedes, responsável pela disseminação da fome; e o Ministério do Amor, responsável por “lei e ordem” por meio de espionagem, tortura e lavagem cerebral. A distopia se tornou real.

Tão real que Jair Bolsonaro, o nosso big brother (que no Brasil se tornou o big father) resolveu inovar e criar o Ministério da Ressurreição – Minres, em novilíngua –, responsável pela volta dos que não foram. Para comandar a pasta, teve que escolher alguém que entende de matar: um general do Exército – Eduardo Pazuello, da ativa. Apenas no último domingo (7), o ministério ressuscitou 857 vítimas fatais da covid-19. O total de óbitos foi reduzido de 1.382 para 525.

Essa não foi a primeira vez que governo mudou informações sobre a doença. Em 2 de abril, o ministério disse que uma mulher de 75 anos havia sido internada no fim de janeiro com covid-19 em Minas Gerais. Seria o primeiro caso de covid no Brasil. No dia seguinte, voltou atrás. Transferiu o caso da idosa para 25 de março e afirmou que o primeiro registro havia ocorrido em 26 de fevereiro. Foi o primeiro grande problema público com dados da pandemia.

Em 20 de abril, o Ministério da Saúde divulgou a notificação de 383 novas mortes por coronavírus em 24 horas. Seria então um recorde de óbitos diários. Mas horas depois, a pasta alegou ter errado na contagem e reduziu o total para 113 vítimas fatais da doença. Naquela época, o total geral de mortes era de 2.575. Hoje, até a publicação deste texto, chegamos a 38.406 (e 739.503 casos confirmados). Desde então, os dados oficiais já vêm sendo constantemente questionados: haveria falhas ou má intenção?

Suspeitamos que o primeiro ponto seja agravado pelo segundo. Isso porque o executivo federal deixou de divulgar dados acumulados de mortes e passou a anunciar apenas os “mortos nas últimas 24 horas”, como se ouviu. Como tudo muda muito rápido no Brasil, a medida já foi derrubada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O Ministério da Saúde alegou que a manipulação era uma “proposta”. Mas não colou.

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No Twitter, a manipulação do governo formou o “Mistério da Saúde”. A arte é de @crisvector.

A mudança e a desmudança na forma de apresentação das estatísticas da covid foram tão rápidas que a discussão sobre o problema nem chegou a se aquecer na socidade. Fato é que se uma pessoa morreu anteontem e o resultado do teste de coronavírus foi liberado hoje, ela não entraria na conta “proposta”. Afinal, morreu há mais de 24 horas. Isso faria com que houve uma falsa sensação de que o número de óbitos estaria “diminuindo”, motivando a saída do isolamento. Somando isso à falta do total acumulado, seria impossível ter um panorama real da doença.

Felizmente, a manobra foi impedida por Moraes. Resta que seja impedido, agora, o próprio presidente da República, que tornou o Brasil um pária – até mesmo para os níveis de Donald Trump, que dexou de seguir um apaixonado Bolsonaro nas redes sociais – no combate ao coronavírus. Enquanto isso, seguimos com um ministro inapto e inepto, que entende tanto de saúde quanto o big father entende de política, ou economia, ou educação, ou qualquer coisa.

É preciso dizer, a propósito, que a ação do ministro do STF foi isolada nos três poderes. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, segue com suas “notas de repúdio”, sem vontade real de agir para não se comprometer eleitoralmente. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, segue na irrelevância que marcou toda sua carreira política até aqui. O procurador-geral da República, Augusto Aras, não passa de um vassalo de um grupo que inclui terraplanistas.

E sabemos que, sem o PGR, não há muito o que a Justiça fazer. E ainda que houvesse o que fazer, parece que não há interesse por parte do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli. O ministro tem colocado panos quentes nas bobagens (ou crimes) do governo. O único problema é que, com aquela história de um cabo e de um soldado, ele pode se queimar com o tal pano quente. Esperemos que não baste um capitão para acabar com nossa democracia.

Já passa da hora de as instituições brasileiras funcionarem para conter e afastar Jair Bolsonaro, ainda que a opção seja Hamilton Mourão – outro autoritário. O melhor dos cenários para o país seria a cassação da chapa que elegeu o presidente e seu vice, já que o disparo em massa de fake news patrocinado pelo clã bolsonarista interferiu no pleito de 2020. Mas isso deve ser analisado com a velocidade dos trens paulistas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Enquanto isso, seguimos com o extermínio da população mais pobre do país por uma doença que tem como principal vetor a gestão de Bolsonaro, que transformou a distopia de 1984 em uma apologia a 1964. Incapaz de sentir empatia ou ter empenho no combate à pandemia, o presidente brasileiro segue como big father, preocupado em livrar a famiglia do rigor da lei. Porque no autoritarismo de Bolsonaro, Jair crê ser o Deus que está acima de de todos e de tudo. Inclusive da vida e da morte, daí a o desejo de ocultar fatos no Ministério da Ressurreição.


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