Estelionato acadêmico

Uma vez, logo no início da graduação, errei ao referenciar uma fonte bibliográfica em uma monografia. Ao justificar a redução da nota, o professor me explicou que falhas como essa, mais que motivarem uma irritação ao autor original (caso o trabalho tivesse destaque, o que não era o caso), poderiam ser prejudiciais à credibilidade de quem orientou a pesquisa. Mais até do que a quem cometeu o erro, já que estava na posição de estudante.

Pois bem. A dissertação de mestrado do ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli – apresentada à Fundação Getúlio Vargas (FGV) – foi orientada por Luis César Gonçalves. Segundo o ministro (digo isto porque, em meio a tantas informações falsas publicadas no currículo, é difícil acreditar no que ele diz). O erro – intencional, ou não, apesar de parecer o primeiro caso – passou em branco pelo orientador e pela banca julgadora do trabalho.

Um trabalho de conclusão de curso que tivesse um erro de bibliografia seria imediatamente reprovado, sem opção de revisar e corrigir o texto. Seria necessário cursar a disciplina novamente, no semestre seguinte. Por isso, é preciso que a FGV, para manter sua reputação, anule o título concedido a Decotelli. Afinal, 10% do total de sua dissertação é resultado de cópia sem créditos de conteúdo produzido por outra pessoa. A isso se chama plágio.

Aliás, crédito seja dado. Os parágrafos fraudulentos do trabalho do ministro foram apontados por Thomas Conti, doutor em economia e professor do Insper. A dissertação, de 99 páginas, analisava o Banrisul (Banco do Estado do Rio Grande do Sul) “do Proes [Programa de Saneamento dos Bancos Estaduais] ao IPO [oferta pública inicial, na sigla em inglês] com governança corporativa”. Afinal, um tema que tem tudo a ver com a pasta. Só que não.

25/06/2020 Assinatura do Termo de Posse do senhor Carlos Alberto
Bolsonaro e Decotelli, feitos um para o outro. (Foto: Marcos Corrêa/Presidência da Reública)

Pré-doutor

E para confirmar que no Brasil, para ser doutor, não necessariamente é preciso ter doutorado, Carlos Alberto Decotelli cometeu mais um estelionato acadêmico ao afirmar na plataforma Lattes – que pertence ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e criada para reunir currículos de pesquisadores científicos – que possuía doutorado na Universidade Nacional de Rosário, da Argentina. Foi desmentido pelo reitor.

Reprovado ao apresentar sua tese, ele considerou que o diploma que dizia que ele havia terminado de cursar as disciplinas permitiam que ele fosse chamado de doutor. Ora, eu fiz uma disciplina de filosofia na faculdade de jornalismo. Teria eu direito a colocar no currículo que sou bacharel em filosofia? Para um governo que vive de mentiras, esse tipo de coisa habilita Decotelli a permanecer no cargo sem que haja nenhum questionamento.

Como na gestão de Jair Bolsonaro tudo pode piorar, se não havia doutorado, seria impossível existir um pós-doutorado. A Universidade de Wuppertal, da Alemanha, confirmou a suspeita e negou que ele tenha obtido lá esse título. E não só isso: uma professora da instituição negou, ainda, que Decotelli tivesse obtido o apoio de uma empresa para o pós-doc, conforme alegara.

Será que, ao menos, Carlos Alberto é realmente o nome de Decotelli?

Zero à esquerda

Além de ter cometido graves irregularidades ao falsificar informações em seu currículo, os temas que Decotelli escolheu para mentir demonstram apenas sua completa incapacidade de atuar frente às políticas de educação. Formado em ciências econômicas (ao menos, ninguém contestou o diploma até agora) na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), estudou “os mecanismos de estruturação de projetos empresariais”.

A graduação terminou em 1980. Mas ele só se especializaria 20 anos depois, talvez porque o estudo não tenha sido para ele uma atividade agradável. O curso, na FGV, foi de administração financeira. Nessa formação, estudou “riscos estratégicos nos jogos empresariais”. A falsa tese de doutorado tinha como título “a gestão de riscos na modelagem dos preços da soja”. Nada mais adequado. Afinal, é de soja que os porcos se alimentam.

As mentiras de Carlos Alberto Decotelli o tornam ideal para o grupo de ministros de Bolsonaro, a quem a incompetência e a pilantragem atraem mais do que o mínimo de decência. O que não se pode dizer, porém, é que o presidente mentiu ao dizer que colocaria um técnico na pasta. O que ele não explicou é que seria alguém formado no ensino técnico, algo que Decotelli fez na Marinha, em 1974, caso não tenha inventado essa informação também.

Entre tantos profissionais capacitados, o presidente da República chafurda entre os membros de uma academia imaginária. O mesmo esgoto de onde surgiram Damares Alves, que disse ter mestrado em educação o que na verdade era um “mestrado bíblico” concedido pelo Jesus da goiabeira, e Ricardo Salles, que fingia ser mestre pela Universidade Yale (Estados Unidos). A mediocridade e a mentira são a base do governo, que sequer pretende ocultá-las.

Novidades

Como toda notícia no Brasil muda a cada meia hora, Decotelli apresentou uma carta de demissão. Talvez seja o mesmo tipo de “demissão a pedido” que o antigo diretor da Polícia Federal apresentou semanas atrás. O único negro do primeiro escalão do governo é também o único a ser demitido por mentir, enquanto demais mentirosos (todos brancos) foram grandemente premiados pelas coisas que fizeram.

Um peso, duas medidas.


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