Palácio da Alvorada: Emas

Nonada. Resmungos que o senhor ouviu foram de briga de militares não, Deus esteja. Alvejei mira em presidente, no quintal, perto do palácio. Nem todo dia isso faço, mas até gosto; desde mal em minha mocidade. Vivemos uns quarenta anos e, nesse quase fim de vida, já observei muita coisa, desde a podridão de João Figueiredo, quando jovem eu ainda era, até o vai-não-vai de Tancredo Neves, que no fim das contas acabou não indo, ou indo mas para outro lugar, restando apenas José Sarney pelo entorno. Não gostava do homem de bigode. Ele trazia consigo marimbondos de fogo que muito me incomodavam. Foi bom quando resolveu se mudar para a Granja do Torto. Quanto à Fernando Collor, prefiro nem lembrar. Mesmo com o pouco contato que tivemos, já que preferia a Casa da Dinda, ele confiscou nosso estoque de alimentos, antes de dar espaço para Itamar Franco, que tinha um topete parecido com o nosso e também não teve tempo de provar nossa simpatia, pois que gostava mais de ficar às margens do Lago Paranoá. Mas a situação só piorou mesmo em 1997, quando eu estava no que vocês chamam de adolescência. Para proteger Bill Clinton, o presidente dos Estados Unidos, o então presidente do Brasil decidiu nos prender bem longe, como se fôssemos perder nosso precioso tempo ciscando sobre um desconhecido qualquer. Fernando Henrique Cardoso não teve o que era bom porque nunca nos deu muita confiança, apesar de ter reduzido seu apelido a três letras só para ver se ganhava nossa graça a partir de uma identificação numérico-nominal. Do contrário, FHC teria sentido a crua vingança de nossos bicos, que podem ser muito mais poderosos do que o de tucanos já decrépitos. Aquele monte de insatisfações ficou melhor quando um velho ao estilo de Papai Noel pousou seu trenó pelas nossas bandas. Lula, era o nome. Ele nos alimentava, mantendo a comida nas mãos, em uma altura bastante boa para pegarmos, sem fazer com que nos curvássemos até o chão. Você não imagina como é recorrente o torcicolo em nossa espécie. Foram oito anos de excelente relação com o inquilino, apesar de o ambiente ser mais movimentado do que o comum para um lugar de descanso. Fazer o quê? Pelo menos não faltava comida e todas nós estávamos bem empregadas no jardim e até ganhamos alguns quilos, o que afinal não é tão bom para o nosso já roliço corpo que pesa sobre pernas finas. O homem barbudo foi embora. Quando um labrador invadiu meu espaço, e tomou umas bicadas, eu já estava quase chegando aos 30 anos. O bicho era De Uma Rousseff aí, pelo que descobrimos com o tempo. Ela não era conhecida de ninguém, mas parece que o inquilino anterior fez a cabeça do proprietário para colocá-la lá. E até que ela foi caminhando bem no começo, só que tropeçando bastante pelo caminho. Não deixava faltar comida e tinha a mão numa posição menos confortável que a de Lula ao nos alimentar. Não lembro de ter dado uma coça nela. Nossa relação era mais distante, mas a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. E desinquieto estava aquele ser monstruoso que era nosso vizinho. Depois, soubemos que estava envolvido no despejo daquela senhora logo após a renovação de seu contrato de aluguel, ou coisa que o valha, de acordo com o que chamam entre o seu povo. Ela ficou menos tempo que o previsto na casa, mas diferentemente do que acontecia antes, ninguém se mudou para ocupar seu lugar. O vizinho, que assumiu a função de inquilino também dali, ficou onde estava, o que até foi bom para nós. Ouvimos dizer de alguns colegas que ele preferia circular nas noites de lua cheia, exceto nas sextas-feiras de número 13. Devia de ser alguma superstição. Nessa época, eu já estava um tanto velha e com a memória começando a falhar. Deve ser por isso que não guardo lembrança de tê-lo bicado. Até porque, ao vê-lo, minhas penas todas se arrepiavam, como se houvesse a presença de algo sobrenatural. Aqui na região ele ficou conhecido como o Que-Diga, um apelido para não nominar o demo. Eu tinha medo? Não. Vá lá. Mas passei a esconder sob as asas um colar com cabeças de alho. Por precaução, sabe? O que a vida quer da gente é coragem. E não é que essa coragem foi crescendo logo no fim da minha vida? Foi quando chegou aquele homem detestável, como se chama? Bonaro? Bolovo? Bonossauro? Jandir Biroliro? Ah, pois, sim, Jair Bolsonaro. Esse velho anda cercado de uns garotos sem educação que nos provocam a todo instante com palavrões e ofensas, nos associando especialmente a dois ocupantes anteriores da grande casa que agora invadem. Como foi que permitiram essa mudança? Algo estava muito errado por ali. Especialmente depois que sequestraram um cão bobo que apareceu pelas ruas próximas. Ele deu um jeito de ir embora. Não muito depois, ficamos sabendo que um tal de Paulo Guedes havia sido mordido por um malamute. Muito que bem. Ao que fontes secretas nos disseram, ele é bastante responsável pela carestia que temos enfrentado há um ano e meio. Falta alimento, estamos sem ocupação, irritadas e com medo de contrair um tal de coronariovírus, coronavírus, que seja! Nossa cólera tem aumentado a cada dia. No ápice do ódio, o tal inquilino resolveu brincar com nossa paciência. Oferecia a mão com comida e depois a tirava de perto de nós, como se fôssemos palhaças. Idosa, tomei a frente e prendi aqueles dedos fétidos entre as minhas mãos. Foi suficiente para desmascarar a macheza do homem, que deu um agudo grito e depois fugiu de nós como se fôssemos aqueles debates de televisão. Ele insistiu, alguns dias depois. Como já estávamos alinhadas em revolução conjunta com o malamute e uma tal de naja que tentou matar um traficante burguês em legítima defesa, intensificamos as tentativas de ataque. Conseguimos. Só que como o homem se chama Jair, decidiu que iria. Iria de novo. Só que teria sido melhor que não fosse. Agora, em vez de comida, nos oferecia cloroquina. Como estou no fim da vida, decidi não discutir. Às vezes, o silêncio é o melhor remédio. Virei as costas para aquele animal. Talvez por isso não tenham me escolhido para estampar a nota de R$ 200. Tanto melhor. Não quero ter minha imagem associada a um possível exagero de inflação. Enfim. No fim daquele dia, fiquei a pensar em como Bolsonaro, a quem apelidamos no quintal de Bico-no-rabo, gostaria de ser como nosso antigo morador, o Lula. Pura inveja. As provocações daquele pareciam uma tentativa de tornar a mão igual à mão deste, sem o dedinho, o qual arrancaríamos. Seríamos culpadas, chamadas de comunistas e até presas por aquele patético generaleco, o pequenino com cabelos brancos. Velha que sou, porém contudo, não temo a morte. Só que receio pela morte como vou morrer, de morte morrida como deve ser, ou de morte matada. É que tenho ouvido dizer que essa gentalha que ocupa nosso palácio tem envolvimento com um negócio chamado milícia. Não sei bem o que é, nem se é certo, mas não me pareceu coisa boa. O senhor vê. Contei tudo. Na velhice estou, com ordem e trabalho, rumo ao fim. Travessia.

*Este texto usa trechos adaptados de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.


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