O aborto da igreja

Virgem, Maria tinha 12 anos quando engravidou (há discussões que elevam essa idade até 15 anos). Um mensageiro apareceu e disse a ela: “Conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus”. Veja que não há opção, mas uma imposição. Ao saber que seu filho seria filho de Deus, a criança respondeu: “Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Maria aceitou seu destino. Mas não vamos analisar a situação com anacronismos.

Mais de 2 mil anos se passaram desde o episódio conhecido como “anunciação”

Apenas dois anos mais nova que Nossa Senhora, nesta semana, uma criança entrou nas manchetes por ter engravidado após ser estuprada pelo tio (que já está preso, aliás). Não houve um mensageiro para avisá-la, nem ela se disponibilizou a ser serva de seu carrasco. Por isso, conforme autorizado pela lei brasileira (que é bem atrasada, machista e fundamentalista nesse sentido), o abordo foi realizado com sucesso, conforme decisão da vítima.

Enquanto isso, na frente do hospital onde foi realizado o procedimento e onde ela estava abraçada com um ursinho de pelúcia, fanáticos religiosos a chamavam de assassina. Evidentemente, o ódio desse grupo não motivou protestos contra o criminoso, pedófilo e estuprador. Isso faz parte da cultura deles, todos extremistas (e muitos eleitores de Jair Bolsonaro, a saber) que também divulgaram ilegalmente os dados sigilosos da pequena.

Contudo, o ataque que mais lamento é o feito pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Na verdade, por seu presidente, dom Walmor Oliveira de Azevedo, que pelo cargo que ocupa é porta-voz da entidade e também de toda a Igreja Católica no país. O religioso é arcebispo de Belo Horizonte e cujo lema é “Ut mederer Contritos Corde”. A frase significa algo como “enviou-me para curar os corações feridos”, mas certamente ele ignora o latim.

Digo que ignora o latim porque suas declarações parecem indicar que ele foi enviado para ferir ainda mais os corações machucados. Em nota, disse que o aborto é um crime hediondo – o que mostra como é ignorante em matéria legislativa – e, seguiu, em tom ainda mais diabólico: “A violência sexual é terrível, mas a violência do aborto não se justifica”. O representante da Igreja Católica está minimizando a violência cometida com uma criança.

Excomungado da prática humanista de Jesus Cristo, o bispo deve imaginar que o Anjo Gabriel visitou a menina de 10 anos para afirmar que ela conceberia o filho de um criminoso. O que não aconteceu, certamente. Os cristãos fanáticos vivem do fetiche de ver a história bíblica se repetir e fecham os olhos para os crimes que cometem. Afinal, sem o aborto precoce e com o corpo ainda não preparado para dar à luz, a gravidez e a vida da menina estariam em risco. 

Mas, certamente, a Igreja Católica não se importa tanto com os estupros.

Poucas foram as resoluções concretas contra casos de pedofilia cometidos por religiosos de todo o mundo. E estou apenas falando dos católicos por ser eu mesmo um católico. Só que eu sou um católico que jamais foi estuprado e jamais teve que decidir sobre gerar ou não um filho indesejado, resultado de uma violência que acontece a cada 10 minutos (e mais da metade com meninas de até 13 anos). Por isso, não sou contra o aborto: sou favorável.

O bispo tem todo o direito de ser contra o aborto: se um dia ele vier a ter um útero e sofrer uma violência do tipo, tendo como resultado uma gravidez indesejada, ele poderá, sim, optar por não abortar. Do contrário, enquanto for conivente com as consequências do ato criminoso e julgar como criminosa a vítima, enquanto não puder engravidar e enquanto este país for – em tese – melhor, é preciso que dom Walmor Oliveira de Azevedo faça o favor de ficar calado.

Pelo bem e pela saúde das vítimas de violência sexual.

Do contrário, a igreja é que deverá ser abortada.


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