A hora e a vez

A morte de João Guimarães Rosa completa 50 anos em 2017.

Desde a publicação de suas obras, estudiosos atribuíram características mitológicas (ou mitopoéticas, na expressão utilizada por Alfredo Bosi) ao material produzido pelo autor. Sagarana é o livro do escritor que indica esse atributo logo no título. O significado do neologismo remete a histórias semelhantes a lendas.

Nesse contexto, este artigo busca verificar se a principal novela da publicação pode ser considerada mitologia e seu personagem principal, um herói.

Para isso, será estudada e aplicada a teoria da Jornada do Herói – descoberta por Joseph Campbell e atualizada por Monica Martinez – numa observação detalhada acerca do texto em foco: A hora e vez de Augusto Matraga.

O escrito, em que Rosa descobriu o melhor de si, faz referências subjetivas à Bíblia e conta a saga de um homem mau do sertão que, após provações, se transforma e alcança certa redenção.

Esta pesquisa retoma, ainda, um pouco da vida e da obra daquele que foi um dos mais notáveis autores brasileiros, além de fazer uma apresentação minuciosa da novela e das teorias utilizadas, bem como a visão de outros acadêmicos sobre o tema.


Leia o artigo

1. Introdução

Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Estêves. Augusto Estêves, filho do Coronel Afonsão Estêves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto — o homem. É assim que começa um dos mais importantes textos escritos por João Guimarães Rosa, autor brasileiro moderno que nasceu 94 dias após a morte de Machado de Assis, com quem até hoje disputa o título de maior escritor da literatura nacional. Continue lendo.

2. Criador…

Quando Guimarães nasceu, em Cordisburgo (Minas Gerais), em 1908, o mundo literário brasileiro vivia um período de transição. Já com aspirações modernas, os escritores abandonavam movimentos como o realismo e o simbolismo para lançarem-se na revolução das letras tupiniquins. A concretização disso aconteceu em 1922, quando Rosa tinha apenas 14 anos. Mas somente 24 anos depois o país conheceria o talento de um de seus mais aclamados escritores, com a publicação de Sagarana, cujo último texto é objeto deste estudo. Continue lendo.

3. …e criatura

No ano em que completava 38 anos, João Guimarães Rosa publicou Sagarana. O livro, que inicialmente teria 12 textos, teve três novelas excluídas pelo autor: Questões de famíliaUma história de amor; e Bicho mau – este, reescrito e publicado no livro póstumo Estas Estórias (1969). O trabalho autocrítico do escritor resultou numa obra com grandes narrativas, como O burrinho pedrêsA volta do marido pródigo; e A hora e vez de Augusto Matraga. Continue lendo.

4. Hora e vez

A última e mais importante novela escrita por João Guimarães Rosa em Sagarana nos apresenta Augusto Estêves – que é o Nhô Augusto e também o Augusto Matraga. O nome latino não foi escolhido à toa: era utilizado para anunciar o poder dos imperadores romanos. No sertão, indica a força do protagonista, um rico filho de coronel das Pindaíbas e do Saco-da-Embira, casado com Dona Dionóra e pai de Mimita, que só tinha 10 anos. Continue lendo.

5. O herói e sua jornada

O objetivo deste trabalho é verificar se a saga de Augusto Matraga segue o padrão da jornada descrita por diversos autores, mas proposta pioneiramente por Joseph Campbell no livro O herói de mil faces, no qual ele afirma que o herói é o homem da submissão autoconquistada. Antes, todavia, é preciso observar o que a literatura considera um herói e qual o perfil desse tipo de personagem. Continue lendo.

6. A trajetória de Augusto

A partir da jornada do herói, passamos a analisar se é possível identificar cada uma das etapas propostas na novela A hora e vez de Augusto Matraga. A vida do protagonista, assim como a da maior parte dos heróis, está muito ligada a lugares. São esses ambientes que vão servir de fronteira para a observação que vamos fazer. Sendo assim, a primeira parte da jornada – a partida – acontece no Murici; a iniciação, no Tombador; e, por fim, o retorno se dá no Rala-Coco. Continue lendo.

7. Considerações finais

Massaud Moisés afirmou que “espécie de divisor de águas e de realizador de altas ambições do Modernismo, Guimarães Rosa constitui o ‘caso’ mais rumoroso de nossa história literária atual” (2012, p. 567), com a transformação que fez do romance nordestino ideologicamente orientado para um regionalismo de tendência mítica. É desse entendimento que partiu a vontade de verificar as características da mitologia na obra do autor mineiro: comprovar cientificamente aquilo que é dado como definitivo, na prática. Continue lendo.

8. Resumos: confira aqui.

9. Bibliografia: confira aqui.